Como um fiscal de mergulho pode verificar se os supervisores sabem utilizar corretamente tabelas de mergulho, descompressão e tratamento
Como um fiscal de mergulho pode verificar se os supervisores sabem utilizar corretamente tabelas de mergulho, descompressão e tratamento
Entre o papel e a realidade operacional
Em operações de mergulho comercial offshore, a presença de tabelas de mergulho, descompressão e tratamento costuma ser tratada como um requisito documental básico. Elas estão a bordo, impressas, encadernadas, às vezes até plastificadas. No entanto, a simples existência dessas tabelas não garante absolutamente nada sobre a capacidade real dos supervisores em utilizá-las de forma correta, segura e responsável.
É justamente nesse ponto que o papel do fiscal de mergulho se torna crítico — e, paradoxalmente, um dos menos compreendidos. Fiscalizar não é calcular mergulhos, nem substituir o supervisor. É avaliar competência técnica aplicada, identificar fragilidades cognitivas e reconhecer riscos operacionais antes que se materializem em acidentes.
Este artigo tem um objetivo claro: ensinar o fiscal a identificar se o supervisor realmente sabe usar tabelas, indo além da verificação superficial e documental.
O erro clássico da fiscalização: confundir posse com domínio
Manuais internacionais são consistentes em um ponto: posse de tabela não equivale a domínio operacional.
Um supervisor pode saber localizar números, seguir passos mecanicamente e ainda assim não compreender limites fisiológicos, margens de segurança ou implicações de desvios operacionais.
A fiscalização eficaz não pergunta “qual tabela você usa?”, mas sim:
- por que essa tabela é adequada a este perfil?
- quais são seus limites?
- o que acontece quando a operação sai do planejado?
O primeiro filtro: coerência entre operação, tabela e procedimento
Antes de qualquer pergunta direta ao supervisor, o fiscal deve fazer uma análise silenciosa e estratégica, cruzando três elementos fundamentais:
- Perfil real da operação: profundidade, tempo, repetitividade, esforço físico e condições ambientais;
- Tabela declarada: origem, edição, aplicabilidade e limitações;
- POP de planejamento e controle: metodologia, registros e critérios de interrupção.
Quando esses três elementos não conversam entre si, há forte indicativo de uso inadequado das tabelas, ainda que formalmente corretas.
A fiscalização como avaliação de raciocínio, não de cálculo
Um erro comum é o fiscal tentar “testar” o supervisor pedindo cálculos complexos. O que deve ser avaliado é o raciocínio técnico, não a habilidade matemática.
Supervisores competentes explicam o porquê das decisões, antecipam consequências, reconhecem zonas de risco e sabem quando a tabela deixa de ser suficiente.
Perguntas que revelam domínio real
“O que limita este mergulho: profundidade, tempo ou repetitividade?”
Essa pergunta simples revela se o supervisor entende o perfil como um todo ou apenas segue números isolados.
“Qual margem de segurança você considera aceitável antes de atingir descompressão obrigatória?”
A ausência de um conceito claro de margem é um sinal clássico de uso mecânico de tabelas.
“Se o tempo de fundo ultrapassar o previsto, o que muda na sua conduta?”
Respostas vagas ou improvisadas indicam fragilidade técnica.
Simulação verbal: a ferramenta mais poderosa da fiscalização
Auditorias internacionais utilizam com frequência simulações verbais, sem consulta a papel ou tabela. O objetivo não é acertar números, mas demonstrar lógica operacional.
“Um mergulhador retorna com dor articular leve 40 minutos após o mergulho. Qual tabela você consulta e por quê?”
Confundir tabela de trabalho com tabela de tratamento é um erro grave e recorrente.
Entendimento fisiológico: o ponto cego mais comum
Supervisão sem compreensão fisiológica transforma tabelas em instrumentos perigosos.
Conferência cruzada: registros contam histórias
Quem domina tabelas registra a realidade, não a versão idealizada da operação.
Uso correto das tabelas de tratamento: limite crítico
“Qual é o seu limite de autonomia antes de acionar suporte médico especializado?”
Respostas vagas indicam risco operacional grave.
O que os manuais internacionais deixam claro ao fiscal
O fiscal não é responsável pelo cálculo, mas é responsável por identificar incompetência técnica.
Conclusão
Fiscalizar o uso de tabelas não é verificar papel, é avaliar capacidade decisória sob risco. Um supervisor que não consegue explicar o raciocínio por trás de uma tabela não está apto a supervisionar, independentemente de certificações formais.
O fiscal que compreende isso deixa de ser um agente burocrático e passa a ser um elemento real de prevenção de acidentes.

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