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MORTE INVISÍVEL NO MERGULHO

MORTE INVISÍVEL NO MERGULHO

Exposição ao Sulfeto de Hidrogênio (H₂S): toxicologia, falhas decisórias e critérios técnicos de prevenção no mergulho profissional

1. Introdução técnica do risco

O sulfeto de hidrogênio (H₂S) é um dos agentes químicos mais letais associados ao mergulho profissional. Diferente dos riscos clássicos do mergulho — como narcose, hipóxia ou doença descompressiva — o H₂S não apresenta progressividade operacional. Ele atua como um risco de efeito binário: ou está ausente, ou é potencialmente fatal.

No contexto subaquático e semi-submerso, o H₂S deve ser classificado como risco de início abrupto, baixa tolerância a erro e dependente exclusivamente de decisões tomadas antes da entrada do mergulhador. Não se trata de um risco controlável pela habilidade individual, mas por engenharia, planejamento e gestão.

2. Propriedades físico-químicas relevantes ao mergulho

2.1 Solubilidade em água e liberação súbita

O H₂S apresenta elevada solubilidade em água, especialmente em ambientes anaeróbicos ricos em matéria orgânica. Em sedimentos portuários, tanques, caixas de mar e compartimentos submersos, o gás pode permanecer dissolvido por longos períodos e ser liberado subitamente quando o fundo é movimentado.

Esse mecanismo explica acidentes fatais em mergulhos rasos, com boa visibilidade e sem qualquer sinal prévio perceptível.

2.2 Densidade e confinamento

Sendo mais pesado que o ar, o H₂S se acumula em pontos baixos, poços, tanques e compartimentos fechados. Em ambientes parcialmente submersos, o mergulhador pode estar respirando uma atmosfera contaminada acima da lâmina d’água, mesmo com fornecimento externo de ar.

3. Toxicologia e mecanismo fisiopatológico

3.1 Asfixia histotóxica

O H₂S inibe a enzima citocromo c oxidase na cadeia respiratória mitocondrial, bloqueando o uso do oxigênio pelas células. O oxigênio chega aos tecidos, mas não é metabolizado. O resultado é uma asfixia celular aguda, funcionalmente semelhante à intoxicação por cianeto.

Por esse motivo, a administração de oxigênio suplementar pode ser ineficaz em exposições severas.

3.2 Colapso neurológico rápido

O sistema nervoso central é o primeiro a falhar. Em concentrações moderadas a altas, o H₂S provoca perda de consciência em segundos, frequentemente sem qualquer reação defensiva. Em mergulhadores, isso significa incapacidade de sinalizar emergência ou iniciar retirada.

4. Limites de exposição e critérios quantitativos

Instituição Limite
OSHA – PEL 20 ppm (teto)
NIOSH – REL 10 ppm (10 minutos)
NIOSH – IDLH 100 ppm
ACGIH – TLV-TWA 1 ppm
ACGIH – STEL 5 ppm

O conceito de IDLH (Immediately Dangerous to Life or Health) é central para o mergulho profissional. Acima desse limiar, qualquer falha adicional resulta em morte. Não existe operação “rápida”, “simples” ou “aceitável” em ambientes com potencial de atingir 100 ppm de H₂S.

5. Ambientes críticos no mergulho profissional

5.1 Caixas de mar (Sea Chests)

Caixas de mar reúnem todas as condições ideais para geração e aprisionamento de H₂S: água estagnada, matéria orgânica, baixa renovação e confinamento geométrico. Há registros internacionais de mortes durante inspeções consideradas rotineiras, sem solda ou limpeza pesada.

5.2 Tanques e compartimentos submersos

Tanques de lastro, compartimentos estruturais e dutos inundados apresentam risco elevado quando permanecem longos períodos fechados. O erro técnico recorrente é avaliar apenas a água, ignorando o volume gasoso acima da lâmina e o histórico de estagnação.

5.3 Portos, estuários e áreas industriais

Sedimentos ricos em sulfatos produzem H₂S continuamente. A movimentação do fundo pelo mergulhador pode liberar nuvens tóxicas localizadas, invisíveis e altamente concentradas, suficientes para provocar colapso imediato.

6. Análise de acidentes fatais

Investigações técnicas de mortes associadas ao H₂S revelam padrões recorrentes: ausência de medição prévia, inexistência de POP específico, pressão operacional e decisões informais baseadas em experiência passada. Em muitos casos, tentativas de resgate improvisadas resultaram em múltiplas vítimas.

7. Identificação correta do risco

7.1 Análise prévia estruturada

A identificação do risco começa antes do deslocamento da equipe. Histórico da estrutura, tipo de fluido, tempo de inatividade e presença de sedimentos devem ser analisados formalmente. Sem isso, não há planejamento técnico válido.

7.2 Medição instrumental

Detectores multigases com sensor específico para H₂S, devidamente calibrados, são obrigatórios. A ausência de medição invalida qualquer avaliação de risco e transforma o mergulho em tentativa.

8. Prevenção operacional e POP

8.1 Engenharia de controle

Ventilação forçada eficaz, lavagem hidráulica, purga e, sempre que possível, métodos remotos devem ser priorizados. Se a engenharia não controla o risco, a operação deve ser abortada.

8.2 POP específico para H₂S

O POP deve estabelecer limites claros em ppm, critérios objetivos de não entrada, proibição de resgate humano sem controle do ambiente, cadeia decisória definida e responsável técnico identificado.

9. Falha sistêmica e responsabilidade técnica

Mortes por H₂S não decorrem de falha individual do mergulhador, mas de decisões de gestão. Trata-se de risco de projeto, de responsabilidade técnica e com implicações legais e criminais para empresas e gestores.

10. Conclusão

O sulfeto de hidrogênio é um risco absoluto. Ele não admite improviso, heroísmo ou tolerância operacional. Onde há potencial de H₂S, ou o risco é eliminado, ou o mergulho não deve existir. Toda morte por H₂S é previsível — e, portanto, evitável.

Referências técnicas e científicas

  • NIOSH – Hydrogen Sulfide: IDLH Documentation
  • OSHA – Hydrogen Sulfide Hazard Information
  • ACGIH – TLVs and BEIs
  • UK HSE – Hydrogen sulphide: health effects
  • Guidotti, T.L. – Hydrogen Sulfide Toxicity
  • Reiffenstein et al. – Toxicology of Hydrogen Sulfide

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