Pular para o conteúdo principal

Ensaios Não Destrutivos Subaquáticos

Ensaios Não Destrutivos Aplicáveis ao Mergulho Profissional

Fundamentos Físicos, Procedimentos e Particularidades Operacionais em Ambiente Subaquático

Os Ensaios Não Destrutivos (END) aplicados ao mergulho profissional constituem um campo técnico próprio, no qual princípios físicos consolidados precisam ser executados em um ambiente que impõe limitações severas de acesso, visibilidade, estabilidade e controle operacional. A água, a pressão hidrostática, a bioincrustação e as condições ambientais influenciam diretamente a execução e a confiabilidade dos resultados.

Este material aprofunda tecnicamente os métodos Ultrassom (UT), Partículas Magnéticas (PM), Correntes Parasitas (ET) e ACFM (Alternating Current Field Measurement), com foco específico na aplicação submersa por mergulhadores profissionais qualificados.

Ultrassom (UT) Subaquático

Princípio físico

O método de Ultrassom baseia-se na emissão de ondas acústicas de alta frequência que se propagam através do material inspecionado. As reflexões dessas ondas, ao encontrarem interfaces internas ou descontinuidades, retornam ao transdutor e são interpretadas para determinar espessura, presença de defeitos internos ou perda de material.

Adaptação ao ambiente submerso

No ambiente subaquático, a água atua como meio de acoplamento natural, eliminando a necessidade de géis acoplantes. Essa característica torna o UT especialmente adequado para inspeções submersas, desde que a superfície apresente contato adequado com o transdutor.

Aplicações típicas

  • Medição de espessura remanescente em chapas metálicas
  • Avaliação de corrosão generalizada ou localizada
  • Inspeção de dutos, risers e estruturas tubulares
  • Monitoramento de degradação ao longo do tempo

Limitações e cuidados

A presença de bioincrustação espessa, rugosidade elevada ou geometria complexa pode afetar a qualidade do sinal. O preparo localizado da superfície e a correta calibração do equipamento são fundamentais para a confiabilidade dos resultados.

Medição de Espessura (ME) Subaquática

Enquadramento técnico e certificação ABENDI

A Medição de Espessura (ME) constitui um método de ensaio não destrutivo com certificação específica no escopo da ABENDI, sendo amplamente aplicada em inspeções industriais subaquáticas voltadas à avaliação de perda de material por corrosão, erosão ou desgaste ao longo do tempo. Embora baseada nos princípios do ultrassom, a ME possui objetivos, procedimentos e critérios de aceitação próprios, distintos da inspeção ultrassônica voltada à detecção de descontinuidades internas complexas.

Princípio de funcionamento

A ME utiliza ondas ultrassônicas refletidas na interface oposta do material inspecionado para determinar, com precisão, a espessura remanescente da parede. O tempo de percurso da onda acústica, associado à velocidade de propagação no material, permite o cálculo direto da espessura, fornecendo dados quantitativos essenciais para análises de integridade estrutural.

Aplicação em ambiente submerso

Em ambiente subaquático, a água atua como meio de acoplamento natural, favorecendo a execução da medição de espessura sem necessidade de acoplantes artificiais. A técnica é particularmente adequada para inspeções contínuas em estruturas submersas permanentes, desde que sejam observados o preparo mínimo da superfície, a correta calibração do equipamento e o controle do posicionamento do transdutor.

Aplicações típicas

  • Medição de espessura remanescente em dutos e risers submersos
  • Acompanhamento de corrosão em estruturas tubulares offshore
  • Inspeção de estacas metálicas, jaquetas e suportes submersos
  • Avaliação de casco submerso de embarcações e unidades flutuantes
  • Monitoramento de degradação em componentes metálicos críticos

Limitações e cuidados operacionais

A presença de bioincrustação espessa, superfícies irregulares ou geometrias complexas pode comprometer a estabilidade das leituras. A execução da ME subaquática exige atenção rigorosa ao alinhamento do transdutor, à pressão de contato e à repetibilidade das medições, sendo indispensável que o profissional possua qualificação específica e experiência prática em ambiente submerso.

Partículas Magnéticas (PM) Subaquático

Princípio físico

O método de Partículas Magnéticas baseia-se na magnetização do material ferromagnético. Descontinuidades superficiais ou subsuperficiais provocam a distorção do campo magnético, concentrando partículas magnéticas aplicadas sobre a superfície.

Execução submersa

A aplicação subaquática do PM apresenta desafios adicionais, uma vez que as partículas tendem a se dispersar no meio líquido. Para mitigar esse efeito, são utilizados dispositivos de contenção local, iluminação reforçada e procedimentos específicos.

Aplicações

  • Detecção de trincas em soldas submersas
  • Avaliação localizada de componentes ferromagnéticos
  • Inspeções pontuais em estruturas metálicas críticas

Limitações

O método é restrito a materiais ferromagnéticos e apresenta maior complexidade operacional no ambiente submerso, sendo geralmente aplicado de forma localizada.

Correntes Parasitas (ET) Submerso

Princípio físico

O método de Correntes Parasitas utiliza indução eletromagnética para gerar correntes na superfície do material. Alterações nessas correntes indicam a presença de trincas, variações de condutividade ou mudanças na espessura superficial.

Aplicação subaquática

A água não interfere diretamente no princípio eletromagnético, porém afeta a estabilidade do posicionamento da sonda. O controle do lift-off e a repetibilidade do contato são fatores críticos.

Aplicações

  • Detecção de trincas superficiais em soldas
  • Inspeções localizadas em componentes metálicos
  • Avaliação de áreas com acesso limitado

ACFM – Alternating Current Field Measurement Submerso

Fundamento técnico

O ACFM é um método eletromagnético avançado que induz um campo de corrente alternada na superfície do material, permitindo a detecção e o dimensionamento aproximado de trincas superficiais sem necessidade de calibração constante.

Aplicação submersa

Embora amplamente utilizado fora d’água, o ACFM possui aplicação consolidada em ambiente submerso, especialmente em estruturas offshore. O método é pouco sensível à presença de revestimentos e irregularidades superficiais.

Vantagens técnicas

  • Baixa exigência de preparo de superfície
  • Capacidade de inspeção sobre revestimentos
  • Boa repetibilidade de resultados
  • Adequação a ambientes submersos permanentes

Limitações

O ACFM é restrito a materiais condutores e focado em descontinuidades superficiais, não substituindo métodos volumétricos como o UT.

Comparação Técnica dos Métodos em Ambiente Subaquático

Método Tipo de Defeito Preparo de Superfície Adequação Submersa
UT Interno / Espessura Baixo Muito Alta
PM Superficial Alto Moderada
ET Superficial Baixo Alta
ACFM Superficial Muito Baixo Muito Alta

Ensaio Visual (VT) Subaquático

Princípio técnico

O Ensaio Visual (VT) subaquático baseia-se na observação sistemática e controlada da superfície e da geometria de componentes submersos, com o objetivo de identificar descontinuidades, alterações geométricas, degradação de materiais e condições operacionais anômalas. Embora fundamentado na inspeção visual direta, o VT constitui um método formal de Ensaio Não Destrutivo, reconhecido no escopo de certificação de pessoal da ABENDI, sendo regido por procedimentos técnicos, critérios de aceitação e requisitos de registro e rastreabilidade. No mergulho profissional, o VT representa o método mais amplamente empregado, servindo como base técnica para a aplicação e interpretação de métodos END instrumentados complementares.

Execução em ambiente submerso

A execução do VT subaquático é realizada por mergulhadores profissionais qualificados, certificados conforme os requisitos aplicáveis da ABENDI, e envolve a inspeção direta da estrutura utilizando iluminação artificial dedicada, sistemas ópticos auxiliares e dispositivos de registro. Em função das limitações inerentes ao meio submerso, são empregados recursos como lanternas de alta intensidade, câmeras e sistemas de vídeo subaquáticos, escalas de referência dimensional, réguas graduadas, calibres mecânicos, espelhos ópticos encapsulados e marcadores de posicionamento. A inspeção pode ser realizada de forma direta ou assistida por sistemas de captura de imagem, permitindo documentação técnica, rastreabilidade e análise comparativa ao longo do tempo.

Aplicações típicas

  • Identificação de corrosão generalizada e localizada
  • Detecção de trincas superficiais aparentes e falhas visíveis em soldas
  • Avaliação de deformações geométricas e desalinhamentos estruturais
  • Inspeção de degradação e falhas em revestimentos e sistemas de proteção
  • Verificação de danos mecânicos decorrentes de impacto ou fadiga operacional
  • Direcionamento técnico para aplicação de UT, ET e ACFM

Limitações e considerações

As limitações do VT subaquático estão diretamente associadas às condições ambientais, como visibilidade reduzida, turbidez da água, bioincrustação, iluminação insuficiente e restrições de acesso geométrico. O método é restrito à avaliação de descontinuidades superficiais visíveis, não permitindo a detecção direta de defeitos internos ou subsuperficiais. Dessa forma, o VT deve ser compreendido como método central e estruturante da inspeção submersa, porém integrado a ensaios volumétricos e eletromagnéticos sempre que necessário. A confiabilidade dos resultados depende da qualificação do mergulhador-inspetor, da padronização dos procedimentos e do correto emprego dos recursos auxiliares, conforme as boas práticas técnicas reconhecidas pela ABENDI.

Considerações Técnicas Finais

A aplicação de Ensaios Não Destrutivos no mergulho profissional exige a integração entre conhecimento físico, técnica de inspeção e compreensão aprofundada do ambiente submerso. O Ensaio Visual (EV) constitui o método mais amplamente empregado e atua como elemento estruturante das inspeções subaquáticas, fornecendo o contexto técnico necessário para o correto direcionamento e interpretação dos demais métodos. Nesse cenário, UT e ACFM destacam-se como os métodos mais compatíveis com inspeções subaquáticas contínuas e de maior complexidade técnica, enquanto PM e ET permanecem relevantes em aplicações específicas, localizadas e devidamente controladas.

Equipamentos, Instrumentação e Fabricantes Utilizados em END Subaquáticos

Considerações gerais sobre instrumentação submersível

A execução de Ensaios Não Destrutivos em ambiente subaquático impõe requisitos específicos aos equipamentos utilizados, que devem apresentar vedação adequada, estabilidade de sinal, resistência à pressão hidrostática e compatibilidade com operação manual por mergulhadores.

Em muitos casos, os instrumentos empregados são versões adaptadas de equipamentos industriais convencionais, integrados a sondas, cabos e conectores desenvolvidos especificamente para uso submerso.

Equipamentos para Ultrassom (UT) e Medição de Espessura (ME)

Para UT e ME subaquáticos, são empregados detectores ultrassônicos portáteis associados a transdutores de contato direto ou de dupla cristal, projetados para operação em meio líquido.

A água atua como meio de acoplamento natural, reduzindo a necessidade de acessórios adicionais e favorecendo a repetibilidade das medições.

  • Detectores ultrassônicos portáteis com ajuste de ganho, DAC e alarmes
  • Transdutores retos e angulares encapsulados para uso submerso
  • Sondas específicas para medição de espessura em aço carbono e ligas
  • Cabos reforçados e conectores selados

Fabricantes amplamente utilizados em aplicações industriais e offshore incluem Olympus, Waygate Technologies (Baker Hughes), Sonatest, Cygnus Instruments — especializada em medição de espessura subaquática — e Eddyfi Technologies.

Equipamentos para Partículas Magnéticas (PM) Subaquático

A aplicação de PM em ambiente submerso requer fontes de magnetização portáteis e sistemas de aplicação controlada das partículas magnéticas. Devido à dispersão no meio líquido, são adotadas soluções específicas para contenção e visualização.

  • Yokes magnéticos submersíveis
  • Bobinas portáteis encapsuladas
  • Partículas magnéticas úmidas adaptadas ao meio aquático
  • Sistemas de iluminação de alta intensidade

Entre os fabricantes com soluções compatíveis destacam-se Magnaflux, Parker Research e equipamentos industriais adaptados de fabricantes tradicionais de END.

Equipamentos para Correntes Parasitas (ET)

Os sistemas de ET subaquáticos utilizam instrumentos eletrônicos associados a sondas especialmente projetadas para manter estabilidade de sinal mesmo com pequenas variações de posicionamento.

O controle do lift-off é um dos principais desafios operacionais desse método em ambiente submerso.

  • Instrumentos portáteis de correntes parasitas
  • Sondas superficiais encapsuladas
  • Sistemas de fixação e guias de posicionamento

Fabricantes como Olympus, Eddyfi Technologies e Rohmann oferecem soluções amplamente utilizadas em inspeções industriais, inclusive em aplicações submersas específicas.

Equipamentos para ACFM Submerso

O ACFM utiliza equipamentos dedicados, com sondas eletromagnéticas projetadas para operar diretamente sobre superfícies metálicas, inclusive através de revestimentos.

O método apresenta elevada robustez para aplicações subaquáticas offshore, especialmente em inspeções de soldas críticas.

  • Unidades ACFM portáteis
  • Sondas lineares e cruzadas encapsuladas
  • Sistemas de aquisição e registro de dados

O principal fabricante associado ao método ACFM é a Eddyfi Technologies (antiga TSC), cujos equipamentos são referência mundial em inspeções offshore submersas.

Integração entre equipamento e qualificação do profissional

Independentemente do método empregado, a confiabilidade dos resultados em END subaquáticos depende diretamente da correta seleção do equipamento, da calibração adequada e da qualificação formal do profissional conforme os esquemas de certificação reconhecidos, como os da ABENDI.

O domínio simultâneo da técnica de ensaio e da operação submersa distingue o mergulhador inspetor plenamente qualificado.

Comentários

Destaques

Delta P - Conheça os perigos da pressão diferencial no mergulho

Pressão Diferencial: o inimigo invisível que já custou vidas no mergulho profissional No universo do mergulho profissional, poucos riscos são tão silenciosos — e ao mesmo tempo tão letais — quanto a pressão diferencial, conhecida internacionalmente como Delta P (ΔP). Trata-se de um fenômeno quase invisível, difícil de perceber a olho nu e que, em questão de segundos, pode transformar uma operação rotineira em um acidente grave ou fatal. O que é a pressão diferencial (Delta P) A pressão diferencial ocorre quando dois corpos de água com níveis ou pressões diferentes se conectam, criando um fluxo intenso e direcionado. Esse cenário é comum em ambientes industriais e confinados, como: Caixas de mar Tanques e reservatórios Condutos e tubulações Estruturas portuárias Plataformas offshore Barragens e eclusas Quando essa comunicação acontece, a água tende a fluir violentamente do ponto de maior pressão para o de menor pressão, gerando um campo de sucção extremamente poderoso. Um risco quase i...

Mergulhadores em Excesso, Vagas em Falta: A Crise Silenciosa do Mergulho Profissional no Brasil

  Mergulhadores em Excesso , Vagas em Falta: A Crise Silenciosa do Mergulho Profissional no Brasil O mergulho profissional brasileiro vive uma contradição profunda e pouco discutida fora do próprio meio: forma-se mais mergulhadores do que o mercado é capaz de absorver, enquanto aqueles que conseguem ingressar enfrentam baixa remuneração, precarização e padrões de segurança incompatíveis com o risco extremo da atividade. Longe de ser uma profissão escassa ou elitizada, o mergulho profissional tornou-se, ao longo dos anos, uma categoria inflada, desvalorizada e empurrada para a informalidade — uma realidade que cobra seu preço em acidentes, adoecimento e abandono da carreira. 🎓 Formação Existe — Emprego, Não É verdade que o Brasil possui poucas escolas formalmente reconhecidas pela Marinha do Brasil para a formação de mergulhadores profissionais, como unidades do SENAI , a Divers University e a Mergulho Pró. No entanto, isso não significou controle de mercado, muito menos equilíbr...

Curso de mergulho profissional no Brasil

Para se tornar mergulhador profissional raso (50 mt) no Brasil, é preciso recorrer à uma das três escolas credenciadas pela Marinha.  Uma das opções é o Senai, que oferece o curso no Rio de Janeiro e em Macaé. A outra é a Divers University em Santos, e por fim, a mais jovem entre as escolas de mergulho profissional, A Mergulho Pro Atividades Subaquáticas.  Os valores estão na média de R$ 5085,04 (Preço Senai) para a formação básica, sendo aconselhável realizar outras especializações que podem elevar significativamente o investimento. Por exemplo, para trabalhar no mercado off-shore é pré-requisito de uma forma geral, a formação em:   Montagem e manutenção de estruturas submersas  (R$2029,46).   Outro exemplo de formação básica complementar:    Suporte Básico À Vida Para Mergulhadores. (Não é pré-requisito) É um ponto positivo pois capacita o mergulhador a prestar os primeiros socorros dentro dos padrões solicitados pela NORMAM 15 (DPC - Marinha...

Doenças invisíveis dos mergulhadores da indústria de óleo e gás

O mergulho profissional na indústria de óleo e gás é um trabalho de alto risco, altamente técnico e fisicamente exigente. Por trás das estruturas em alto-mar e das operações submarinas, há pessoas que colocam o corpo em condições extremas: pressão elevada, água fria, tarefas pesadas com ferramentas e ergonomia limitada. Isso cobra um preço 🌊 **Doenças Ocupacionais em Mergulhadores Profissionais da Indústria de Óleo e Gás – Uma análise científica baseada em evidências** O trabalho subaquático na indústria de óleo e gás expõe o corpo humano a condições físicas extremas: grandes pressões, repetições de imersões, misturas gasosas complexas, temperaturas frias, uso de equipamentos pesados e demandas ergonômicas intensas. Essas condições criam um conjunto específico de doenças disbáricas e lesões ocupacionais que diferem do mergulho recreativo em sua frequência, gravidade e implicações de longo prazo. 🧠 1. Doença da Descompressão (DCS) 📌 Definição e fisiopatologia A Doença da Descompress...

Aprenda marinharia - Pinha de Retinida

Sua embarcação vai acostar junto a outra embarcação para realizar a faina do dia! Eis que é necessário lançar o cabo para amarração. Quantos já tiveram problemas nesse momento, precisando de diversos arremessos para obter sucesso. A verdade é que se tivessem aprendido este nó, a coisa seria muito mais fácil. O "Pinha de Retinida" foi concebido para formar um peso na extremidade de uma linha guia a fim de permitir lançar o chicote de um cabo a uma maior distância. O que é: *Faina: s.f. Qualquer trabalho a bordo de um navio *Acostar : 1) Diz-se quando uma embarcação se aproxima de uma costa; navegar junto à costa. 2) Encostar o barco no cais ou em outra embarcação. Leia também:  Aprenda Marinharia - Falcaça Simples Aprenda Marinharia - Nó Volta do Fiel Aprenda Marinharia - Nó Láis de Guia Aprenda Marinharia - Nó Boca de Lobo

Da planilha ao tribunal: quando decisões administrativas encontram o corpo do trabalhador

 Da planilha ao tribunal: quando decisões administrativas encontram o corpo do trabalhador Nos autos de um processo envolvendo acidente em atividade subaquática , duas narrativas se enfrentam. De um lado, a empresa, que apresenta procedimentos, contratos e relatórios. Do outro, o profissional acidentado , cujo corpo passa a ser a prova material da falha do sistema . O tribunal não julga apenas um evento isolado. Julga decisões administrativas confrontadas com a realidade operacional. O risco conhecido e a expectativa legítima do trabalhador Ao ingressar em uma atividade reconhecidamente perigosa, o profissional não renuncia aos seus direitos. A jurisprudência é clara ao reconhecer que o risco assumido é apenas o risco residual , aquele que permanece após a adoção de todas as medidas técnicas razoáveis. O trabalhador possui expectativa legítima de que: os equipamentos estejam certificados e mantidos, os procedimentos reflitam a prática real, a equipe seja dimensionada adequadamente...

Mergulhando na Caixa de Mar

 Você sabe o que é caixa de mar  ? A caixa de mar fornece um reservatório de entrada do qual os sistemas de tubulação retiram água bruta.  A maioria das caixas de mar é protegida por  grades  removíveis  e podem conter placas defletoras para amortecer os efeitos da velocidade da embarcação ou do estado do mar.  O tamanho de entrada e espaço interno das caixas de mar pode varia de menos de 10 cm² a vários metros quadrados. As grades da caixa de mar estão localizadas debaixo de água no casco de um navio tipicamente adjacente à casa das máquinas. As caixas do mar são utilizadas para extrair água através delas para lastro e arrefecimento de motores, e para demais sistemas de uma embarcação, incluindo plataformas de petróleo. São raladas até um certo tamanho para restringir a entrada de materiais estranhos indesejados. Esta área crítica de entrada subaquática requer cuidados e manutenção constantes para assegurar um fluxo livre de água do mar. Os Serviços d...

A negligenciada limpeza dos capacetes Kirby Morgan no mergulho comercial brasileiro

  A limpeza dos capacetes Kirby Morgan no mergulho comercial brasileiro: o que dizem os manuais e o que acontece na prática No mergulho comercial brasileiro, especialmente na indústria naval e de óleo e gás, os capacetes Kirby Morgan são equipamentos compartilhados entre mergulhadores em uma mesma frente de trabalho. Em teoria, os manuais do fabricante e as boas práticas internacionais são claros: capacetes compartilhados exigem limpeza e sanitização adequada entre um mergulho e outro. Na prática, porém, o cenário encontrado em muitas operações está longe do ideal. 🚢 A realidade no campo: apenas detergente, quase nunca sanitização Em grande parte das frentes de mergulho no Brasil, o material enviado pelas empresas para a higienização dos capacetes se resume a detergente comum (geralmente neutro) e água doce. Produtos sanitizantes apropriados — aqueles capazes de eliminar bactérias, fungos e vírus — raramente fazem parte do kit operacional. O resultado é um procedimento que, na mel...

Quando o bônus vira risco: os perigos de premiar gestores pelo corte de custos

  Quando o bônus vira risco: os perigos de premiar gestores pelo corte de custos Em muitos contratos offshore , metas agressivas de redução de custos passaram a ser tratadas como sinônimo de eficiência. Gestores são premiados por entregar orçamentos enxutos, cronogramas acelerados e economias imediatas. O problema surge quando esse corte não atinge desperdícios — mas sim o elo mais frágil da cadeia produtiva: o profissional de atividade-fim. No mergulho profissional , esse elo tem nome, CPF e família esperando em casa. Reduzir custos sem critério, especialmente em operações subaquáticas , não é estratégia. É aposta. O falso ganho da economia operacional Na prática, o que se observa em ambientes de alta pressão financeira é a redução de investimentos em: Treinamento e reciclagem de mergulhadores Manutenção preventiva de equipamentos críticos Atualização de sistemas de suporte à vida Redundâncias operacionais e equipes completas Planejamento de contingência e gestão de risco humano...

701 metros abaixo do limite humano: o mergulho que redefiniu o que é possível

  O mergulho que reescreveu os limites humanos: o case do Projeto Hydra e a revolução do mergulho de saturação Mar do Norte , décadas de 1970 e 1980. Água quase congelando, visibilidade mínima, pressões esmagadoras. Foi nesse cenário hostil que o mergulho comercial deixou de ser apenas uma atividade operacional — e se tornou um laboratório extremo de inovação humana, médica e tecnológica. Quando a profundidade deixou de ser o maior inimigo Até os anos 1960, o mergulho profissional tinha um limite claro: o corpo humano. A profundidade exigia longas descompressões, os riscos neurológicos eram altos e o tempo útil de trabalho era extremamente curto. A indústria offshore europeia — especialmente no Mar do Norte — precisava de algo radicalmente novo. Plataformas avançavam para águas cada vez mais profundas, e o custo do “tempo morto” de descompressão se tornava insustentável. Foi nesse contexto que nasceu um dos maiores cases de sucesso em inovação do mergulho comercial internacional:...