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O Lula tem razão?

O Lula tem razão?

Organização coletiva, poder de barganha e os baixos salários no mergulho profissional brasileiro

Ao declarar, durante a cerimônia dos 90 anos do salário mínimo, que o valor pago no Brasil é baixo e que categorias organizadas conseguem negociar acordos acima desse piso, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva não fez apenas uma observação política. Ele descreveu um mecanismo estrutural do mercado de trabalho brasileiro: salário não é determinado apenas por risco, qualificação ou importância social da atividade, mas pelo grau de organização coletiva e pelo poder real de negociação institucionalizado.

Essa afirmação, quando deslocada do debate genérico sobre renda e aplicada ao mergulho profissional, revela um problema mais profundo do que simples insatisfação salarial. Ela expõe uma fragilidade estrutural de um setor que opera em ambientes extremos, com risco elevado e impacto direto sobre ativos críticos, mas que ainda negocia sua remuneração como se fosse mão de obra comum.

Salário mínimo: piso legal ou referência distorcida?

O salário mínimo foi concebido como piso civilizatório de sobrevivência, não como parâmetro técnico de valorização profissional. No entanto, em setores pouco organizados, ele deixa de ser apenas piso e passa a funcionar como referência implícita de mercado.

No mergulho profissional brasileiro, essa distorção se manifesta de forma recorrente:

  • Pagamentos formalmente acima do mínimo, mas desconectados do risco operacional real;
  • Diárias que não incorporam exposição hiperbárica cumulativa ao longo da carreira;
  • Remuneração que ignora a curta vida útil do mergulhador operacional;
  • Ausência de diferenciação clara por profundidade, ambiente, complexidade e criticidade.

Cumpre-se a legislação trabalhista, mas não se cumpre a lógica técnica de gestão de risco.

A tese central da fala presidencial

Quando Lula afirma que categorias organizadas conseguem salários acima do mínimo, ele descreve um fenômeno observável em diversos setores estratégicos da economia brasileira: organização coletiva transforma indivíduos isolados em força negociadora.

É essa estrutura que permite a categorias como petroleiros, aeronautas, eletricitários e metroviários:

  • Pisos salariais setoriais significativamente acima do mínimo nacional;
  • Acordos coletivos amplos e recorrentes;
  • Cláusulas específicas para risco, jornada, descanso e saúde ocupacional;
  • Maior previsibilidade operacional e menor exposição a improviso.

Não se trata de ideologia ou retórica sindical. Trata-se de correlação direta entre organização, poder de barganha e remuneração real.

As fragilidades estruturais do mergulho profissional

O mergulho profissional brasileiro apresenta um conjunto clássico de fragilidades organizacionais:

  • Fragmentação da categoria
    Empregados, autônomos, subcontratados e temporários coexistem sem uma pauta unificada.
  • Baixa cobertura de acordos coletivos nacionais
    Inexistência de um piso técnico nacional que reflita risco e complexidade.
  • Assimetria de poder contratual
    O mergulhador negocia individualmente contra estruturas empresariais robustas.

Nesse cenário, o risco não se converte em valor negociável. Ele é internalizado pelo indivíduo.

Risco elevado não garante salário elevado

Risco, por si só, não gera remuneração alta. Organização é o que transforma risco em poder de barganha.

O mergulho profissional brasileiro reúne todos os elementos que, em outros países, justificam salários elevados: risco físico, responsabilidade técnica e impacto direto na segurança de ativos. O que falta não é risco — é estrutura coletiva.

O custo oculto da remuneração comprimida

Baixos salários no mergulho profissional não produzem economia real. Produzem:

  • Fadiga crônica;
  • Rotatividade elevada;
  • Redução da margem de segurança;
  • Aumento da probabilidade de erro humano;
  • Passivos jurídicos e previdenciários de médio e longo prazo.

Remuneração comprimida não reduz custo total. Apenas adia sua manifestação.

Então, Lula tem razão?

Do ponto de vista estrutural, sim.

A fala presidencial ajuda a explicar por que até profissões críticas continuam mal remuneradas: sem organização coletiva forte, o mercado trata o trabalhador como recurso substituível, independentemente do risco envolvido.

Reflexão final para gestores e decisores

Quanto custa operar atividades hiperbáricas críticas com profissionais pressionados por remuneração insuficiente?

A resposta raramente aparece no orçamento inicial. Mas quase sempre aparece no relatório de incidente.

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