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Doenças Osteomusculares em Mergulhadores Profissionais

Doenças Osteomusculares em Mergulhadores Profissionais

Evidências científicas, fatores ocupacionais e implicações clínicas

Introdução

O mergulho profissional expõe o organismo humano a um conjunto singular de estressores físicos, biomecânicos e hiperbáricos. Além dos riscos amplamente reconhecidos da doença descompressiva (DCS), cresce o corpo de evidências científicas que associa a atividade de mergulho ocupacional a queixas e patologias osteomusculares, tanto agudas quanto crônicas. Essas condições incluem desde dores articulares e musculares recorrentes até entidades clínicas graves, como a osteonecrose disbárica (dysbaric osteonecrosis – DON).

Esta reportagem técnica é baseada principalmente no estudo “Musculoskeletal complaints among professional divers”, publicado no periódico International Maritime Health, e cruza seus achados com revisões sistemáticas, estudos epidemiológicos e relatos clínicos internacionais sobre o mesmo tema.

Queixas musculoesqueléticas no mergulho profissional

O estudo conduzido por Flatmo, Grønning e Irgens (2019) analisou a prevalência de queixas musculoesqueléticas em mergulhadores profissionais por meio de questionários aplicados a trabalhadores do setor marítimo e offshore.

“Divers engaged in physically demanding underwater work reported a significantly higher prevalence of musculoskeletal complaints compared to those not involved in such activities.”

As queixas mais frequentemente relatadas incluíram:

  • Dor articular persistente
  • Dor muscular crônica
  • Entorses e distensões
  • Tendinites e inflamações periosteais

A associação foi particularmente forte em mergulhadores envolvidos em atividades de construção subaquática, inspeção estrutural, soldagem, pipelaying e uso de ferramentas pesadas ou vibratórias.

Carga física ocupacional como fator determinante

Diferentemente do mergulho recreativo, o mergulho profissional é caracterizado por posturas forçadas prolongadas, movimentos repetitivos sob resistência hidrodinâmica, transporte e operação de ferramentas pesadas e exposição à vibração mecânica.

O artigo central reforça que parte significativa das queixas observadas não pode ser explicada exclusivamente por eventos de descompressão, mas sim por sobrecarga biomecânica cumulativa, aproximando o perfil do mergulhador profissional ao de outras categorias industriais de alta exigência física.

Doença descompressiva musculoesquelética

A doença descompressiva musculoesquelética é uma das manifestações mais comuns da DCS e se caracteriza por dor profunda em articulações e tecidos periarticulares, frequentemente descrita como dor surda, progressiva e mal localizada.

Estudos clínicos demonstram que quadris, ombros, cotovelos, joelhos e tornozelos são as articulações mais afetadas, e que a dor pode persistir mesmo após recompressão terapêutica, aumentando o risco de sequelas estruturais.

Osteonecrose disbárica: a forma crônica

A osteonecrose disbárica representa uma das manifestações tardias mais graves associadas à exposição hiperbárica repetitiva. Revisões de literatura indicam prevalência variável entre mergulhadores profissionais, com maior incidência em populações historicamente expostas a perfis agressivos de descompressão.

“Dysbaric osteonecrosis may develop silently and progress even after cessation of diving activities, posing a long-term occupational health risk.”

As regiões mais frequentemente acometidas incluem a cabeça do fêmur, o úmero proximal e os joelhos, com potencial evolução para limitação funcional permanente.

Diagnóstico e monitoramento

A ressonância magnética é considerada o método de escolha para detecção precoce de lesões osteonecrosantes, especialmente em mergulhadores com histórico de DCS musculoesquelética e dor persistente.

Implicações para a saúde ocupacional

As evidências indicam duas categorias principais de adoecimento osteomuscular no mergulho profissional: distúrbios relacionados à carga física do trabalho e lesões osteoarticulares associadas à descompressão, incluindo a osteonecrose disbárica.

Ambas impactam diretamente a aptidão para o mergulho, a longevidade da carreira profissional e a segurança operacional.

Considerações

O estudo “Musculoskeletal complaints among professional divers” fornece evidência consistente de que as queixas osteomusculares são altamente prevalentes entre mergulhadores profissionais, resultando da interação entre carga física ocupacional e exposição hiperbárica.

O cruzamento com a literatura internacional reforça a necessidade de protocolos sistemáticos de vigilância musculoesquelética, prevenção rigorosa da DCS e integração entre medicina do mergulho, ergonomia e engenharia de operações subaquáticas. Continua Abaixo

Referências

Flatmo F, Grønning M, Irgens Å. Musculoskeletal complaints among professional divers. International Maritime Health. 2019;70(2):107–112. DOI: 10.5603/IMH.2019.0017.

Análise Técnica Final — Fatores Operacionais Subestimados no Adoecimento Osteomuscular

Embora o estudo “Musculoskeletal complaints among professional divers” identifique correlações estatísticas claras entre carga física, tipo de atividade subaquática e queixas musculoesqueléticas, alguns fatores operacionais críticos do mergulho profissional permanecem sub-representados na literatura quantitativa, apesar de seu impacto direto e cumulativo sobre o sistema osteomuscular.

Peso total do conjunto de equipamentos

Um dos aspectos mais relevantes é o peso total do conjunto de equipamentos utilizado pelo mergulhador, especialmente em operações profissionais e comerciais. Dependendo do sistema empregado, o conjunto completo pode facilmente ultrapassar 50 kg em ambiente seco, incluindo:

  • Roupa de mergulho (seca ou água quente, com forros térmicos)
  • Lastro
  • Colete ou sistema de suporte (backpack, harness ou estrutura rígida)
  • Cilindros de gás (single, twinset ou bailout)
  • Capacete ou full face mask
  • Umbilical, mangueiras e acessórios
  • Ferramentas individuais acopladas ao corpo

Esse peso impõe compressão axial significativa sobre a coluna, aumento das cargas em quadris, joelhos e tornozelos e sobrecarga assimétrica durante deslocamentos em convés, rampas, escadas e áreas confinadas. O artigo de referência associa maior prevalência de queixas a atividades fisicamente exigentes; o peso do equipamento representa, na prática, a base mecânica dessa exigência.

Tempo prolongado já equipado antes da imersão

Outro fator operacional crítico é o tempo de permanência do mergulhador completamente equipado antes de entrar na água. Em operações reais, especialmente offshore, esse período pode se estender por longos intervalos, envolvendo checklists extensos, testes de comunicação, verificações de sistemas redundantes e espera por liberação operacional.

Durante esse período, o mergulhador permanece frequentemente em posição ortostática estática, sob carga total do equipamento, muitas vezes em superfícies instáveis ou com restrição de movimento. Do ponto de vista biomecânico, trata-se de uma condição altamente extenuante, associada a fadiga muscular precoce, sobrecarga lombar e cervical e microlesões cumulativas.

Entrada e saída da água como eventos críticos

Os momentos de entrada e saída da água representam picos de carga mecânica frequentemente subestimados. Nesses instantes, o mergulhador transita entre ambiente seco, parcialmente sustentado e submerso, envolvendo movimentos complexos e assimétricos sob peso máximo.

Essas transições estão fortemente associadas a entorses, distensões e lesões articulares — exatamente o tipo de queixa identificado como prevalente no estudo analisado.

Interação entre carga física e descompressão

O artigo de referência indica que mergulhadores com histórico de doença descompressiva apresentam maior prevalência de queixas musculoesqueléticas. A análise integrada sugere que a sobrecarga física pode atuar como cofator, potencializando microlesões, aumentando a suscetibilidade a insultos isquêmicos e favorecendo a progressão de quadros subclínicos para condições crônicas, como a osteonecrose disbárica.

Implicações práticas para a atividade profissional

A prevenção de doenças osteomusculares no mergulho profissional não pode se limitar ao controle de perfis de descompressão. É necessário considerar redução do tempo em solo com equipamento completo, otimização ergonômica dos sistemas de suporte, procedimentos de entrada e saída que minimizem cargas assimétricas e avaliações médicas que contemplem o histórico de sobrecarga mecânica cumulativa.

Síntese conclusiva

As queixas musculoesqueléticas observadas em mergulhadores profissionais resultam da convergência entre carga física extrema, exigências operacionais e exposição hiperbárica repetitiva. O artigo analisado fornece a base epidemiológica; a análise operacional revela o mecanismo real que sustenta esses dados.

Ignorar esses fatores significa tratar apenas os sintomas estatísticos, e não a realidade biomecânica e operacional do mergulho profissional.

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