Luvas no mergulho profissional: quando a proteção das mãos se torna um risco operacional
Introdução
As mãos são, simultaneamente, a principal ferramenta e um dos pontos mais vulneráveis do mergulhador profissional. É por meio delas que se executam ajustes finos, inspeções táteis, conexões críticas e manuseio de ferramentas sob condições adversas de visibilidade, temperatura, corrente e pressão.
Apesar disso, os acidentes envolvendo cortes, esmagamentos, perfurações e perda funcional das mãos continuam recorrentes nas operações subaquáticas. Em muitos casos, o problema não está na ausência de luvas, mas na escolha inadequada do EPI, baseada em critérios genéricos, experiências empíricas ou na simples transposição de soluções terrestres para o ambiente submerso.
Este artigo analisa o problema sob a ótica da decisão técnica, da gestão de risco e da responsabilidade operacional, abordando os limites das normas existentes e os critérios reais para seleção de luvas no mergulho profissional.
O erro recorrente: tratar a luva como acessório, não como ferramenta crítica
Na prática operacional brasileira, a luva costuma ser tratada como um EPI secundário, escolhido por conveniência, custo ou hábito histórico. Essa abordagem ignora um fator essencial: no mergulho profissional, a mão não apenas protege — ela decide.
Perda de sensibilidade tátil compromete:
- torque correto em conexões;
- posicionamento preciso de componentes;
- leitura tátil de superfícies e folgas;
- controle fino de ferramentas.
Por outro lado, luvas excessivamente finas ou inadequadas expõem o mergulhador a:
- cortes em estruturas corroídas;
- perfurações por cabos, arames e rebarbas;
- impactos e esmagamentos durante movimentação submersa.
A escolha errada não elimina o risco — ela o desloca.
Acidentes com mãos não são falhas individuais
É um erro comum atribuir acidentes com mãos à “falta de atenção” do mergulhador. Essa leitura é superficial e perigosa.
Na maioria dos casos, o evento é consequência de:
- especificação inadequada do EPI;
- ausência de análise de tarefa submersa;
- inexistência de POP específico para proteção de mãos;
- uso de luvas certificadas para terra em ambiente aquático sem validação.
Trata-se, portanto, de uma falha sistêmica de decisão, e não de conduta individual.
Tipos de tarefas submersas e conflitos de proteção
Operações que exigem alta sensibilidade tátil
Exemplos: ajustes finos, instrumentação, conexões hidráulicas ou mecânicas, inspeções por tato.
Risco predominante: erro operacional por perda de sensibilidade.
Problema comum: luvas espessas que anulam feedback tátil.
Operações com risco mecânico elevado
Exemplos: trabalho em estruturas corroídas, sucata submersa, cascos, estacas e grades.
Risco predominante: corte, perfuração, esmagamento.
Problema comum: luvas finas demais ou com reforço insuficiente.
A tentativa de resolver ambos os cenários com uma única luva “padrão” costuma falhar.
Materiais e soluções disponíveis — limites reais
Neoprene tradicional
Amplamente usado no mergulho recreativo e profissional leve.
Vantagens: conforto térmico, boa mobilidade e aderência razoável.
Limitações: baixa resistência a corte e perfuração, falsa sensação de proteção.
Neoprene com reforços
Solução intermediária com reforços em materiais sintéticos.
Vantagens: melhora na abrasão, alguma sensibilidade.
Limitações: reforços nem sempre certificados, proteção limitada contra cortes profundos.
Luvas com fibras de alta resistência
Modelos com fibras como Kevlar® combinam resistência mecânica com flexibilidade.
Vantagens: maior resistência a corte e abrasão, melhor equilíbrio.
Limitações: custo elevado, desempenho variável em ambiente molhado e sem pressão hidrostática prevista em teste.
O problema normativo: certificadas, mas não para mergulho
Normas existentes
Não existe norma técnica específica para luvas de mergulho profissional submerso. O que existe são normas de proteção mecânica para uso geral, como:
- ISO 21420 — requisitos gerais para luvas de proteção;
- ISO 23388 / EN 388 — resistência à abrasão, corte, rasgo e perfuração;
- ANSI/ISEA 105 e 138 — classificação de risco mecânico e impacto.
Essas normas são válidas em ambiente seco ou controlado, e não consideram fatores como perda de aderência em água, rigidez sob pressão ou impacto da água fria na destreza.
Normas de mergulho
No Brasil, a NORMAM-222/DPC exige o uso de EPIs, incluindo luvas, mas não define critérios técnicos de desempenho. O mesmo ocorre nos padrões internacionais.
Conclusão técnica: certificação terrestre não garante segurança submersa.
Risco oculto: quando a luva “certificada” aumenta o perigo
Uma luva com alto nível de resistência pode perder aderência em água, endurecer em água fria e reduzir a sensibilidade, resultando em erros operacionais como aperto excessivo de conexões ou escorregamento de ferramentas.
Ou seja, a proteção da pele pode criar **risco operacional** adicional.
POP conceitual para seleção de luvas em mergulho profissional
Sem norma específica, a responsabilidade técnica exige método. Recomenda-se:
- Identificação da tarefa submersa;
- Mapeamento do risco predominante;
- Definição de sensibilidade tátil mínima aceitável;
- Escolha de reforços sem comprometer a função;
- Teste prático em ambiente real;
- Registro formal da decisão no POP operacional.
A ausência desse processo transfere o risco diretamente para o mergulhador.
Responsabilidade técnica e jurídica
A inexistência de norma específica não exime responsabilidade. Em caso de acidente, a escolha da luva será analisada, e a ausência de análise de risco pesa contra a empresa e sua gestão operacional.
No mergulho profissional, EPI mal especificado é falha de gestão, não de execução.
Conclusão
Luvas não são acessórios no mergulho profissional. São interfaces críticas entre decisão humana e ambiente hostil. A proteção eficaz das mãos exige análise de tarefa, compreensão dos limites normativos, validação prática submersa e responsabilidade técnica documentada.
Enquanto não houver norma específica para luvas submersas, a segurança dependerá menos do produto escolhido e mais da qualidade da decisão que levou a essa escolha.

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