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Michael Menduno: o homem que mudou a forma como o mundo respira debaixo d’água

 


Michael Menduno: o homem que mudou a forma como o mundo respira debaixo d’água

Jornalismo técnico, ciência aplicada e a revolução silenciosa do mergulho moderno

Poucos nomes exerceram tanta influência estrutural no mergulho técnico, científico e operacional quanto Michael Menduno. Mais do que um jornalista especializado, Menduno atuou como um elemento de transição crítica entre a ciência hiperbárica, as operações extremas e a cultura de segurança que hoje sustenta o mergulho avançado em escala global.

Ele não projetou equipamentos, não comandou frotas e não liderou forças especiais. Ainda assim, moldou decisões, protocolos e mentalidades. Seu legado não está no hardware, mas na forma como o mergulho passou a ser pensado.

Um cenário de risco normalizado

Nas décadas de 1970 e 1980, mergulhar além dos limites recreativos era uma atividade marcada por:

ausência de padronização,

improvisação operacional,

acesso restrito à informação científica,

elevada incidência de acidentes graves.

O conhecimento técnico existia, mas estava confinado a ambientes fechados:

marinhas militares,

institutos de pesquisa,

operações comerciais e governamentais.

O mergulhador civil avançado operava, em grande parte, por tentativa e erro. Foi nesse vácuo informacional que Menduno identificou o problema central:

o risco não estava apenas na profundidade, mas na ignorância estruturada.

AquaCORPS: quando o mergulho passou a ser debatido com método

Em 1990, Michael Menduno funda a aquaCORPS Journal, uma publicação que rompeu definitivamente com o modelo tradicional de revistas de mergulho.

A aquaCORPS não promovia destinos, não vendia aventura e não romantizava o risco. Seu foco era claro:

misturas respiratórias avançadas,

rebreathers de circuito fechado,

fisiologia extrema,

modelos de descompressão,

análise técnica de acidentes reais.

Pela primeira vez, mergulhadores civis tiveram acesso direto ao pensamento de:

médicos hiperbáricos,

engenheiros de sistemas respiratórios,

pesquisadores militares,

operadores experientes de ambientes extremos.

O mergulho técnico deixou de ser uma prática marginal para se tornar um campo de estudo aplicado.

Rebreathers: da desconfiança ao uso responsável

Antes da década de 1990, os rebreathers eram vistos como:

sistemas instáveis,

perigosos,

inadequados para uso civil.

Menduno não tentou popularizá-los de forma irresponsável. Pelo contrário:

expôs falhas, documentou acidentes e discutiu limitações fisiológicas com rigor quase clínico.

Esse trabalho:

pressionou fabricantes por melhorias reais,

impulsionou a criação de padrões,

formou mergulhadores tecnicamente alfabetizados.

Hoje, os rebreathers são ferramentas consolidadas em:

pesquisa científica,

exploração profunda,

arqueologia subaquática,

operações profissionais específicas.

Essa maturação não ocorreu por acaso — foi construída com informação crítica.

O jornalismo como ferramenta de segurança

A grande inovação de Michael Menduno foi tratar o jornalismo como um instrumento operacional.

Seus textos adotavam uma abordagem que hoje reconhecemos como padrão em sistemas de segurança:

análise multicausal de acidentes,

identificação de falhas humanas e sistêmicas,

rejeição à narrativa de “fatalidade”,

uso de dados técnicos e relatos cruzados.

Décadas antes da popularização de conceitos como SMS (Safety Management Systems), Menduno já defendia que:

acidentes são previsíveis quando se compreende o sistema.

Essa lógica influencia diretamente investigações, treinamentos e protocolos modernos.

Impacto além do mergulho técnico

Embora frequentemente associado ao mergulho técnico extremo, a influência de Menduno alcança:

mergulho científico universitário,

operações de exploração profunda,

cultura de redundância e checklist,

integração entre ciência, equipamento e tomada de decisão.

Ele ajudou a dissolver a fronteira artificial entre “mergulho recreativo avançado” e “mergulho de missão”.

Hoje, ambos compartilham a mesma base conceitual: planejamento, consciência de risco e responsabilidade coletiva.

O silêncio que permanece nos procedimentos

Michael Menduno faleceu em 2022. Seu impacto, no entanto, não se mede por homenagens, mas por práticas consolidadas.

Cada vez que um mergulhador:

questiona um perfil de mergulho,

respeita limites fisiológicos,

entende o racional por trás de um protocolo,

há ali um reflexo direto de sua atuação.

Ele não ensinou pessoas a mergulhar.

Ensinou pessoas a pensar enquanto mergulham.

Nota Editorial – Continuidade de um legado

O trabalho de Michael Menduno exerce influência direta sobre a forma como concebemos e estruturamos nossas reportagens.

Assim como Menduno, partimos do princípio de que o mergulho — seja técnico, profissional, científico ou operacional — não pode ser tratado como espetáculo, improviso ou produto de consumo. Ele exige contexto, método, responsabilidade e análise crítica.

Nossa linha editorial reconhece no jornalismo técnico uma função prática:

reduzir ruídos, expor riscos reais, conectar ciência à operação e transformar informação em ferramenta de segurança.

Ao longo de sua trajetória, Menduno rompeu com a superficialidade, abriu dados sensíveis ao debate e demonstrou que acidentes não são eventos isolados, mas consequências de sistemas mal compreendidos. Essa visão orienta diretamente nosso trabalho.

Quando abordamos:

operações complexas,

novos equipamentos,

acidentes,

limites fisiológicos,

decisões políticas, econômicas ou industriais que impactam o mergulho,

fazemos isso sob a mesma premissa que guiou Menduno:

entender antes de julgar, explicar antes de promover, informar antes de entreter.

Dar continuidade ao legado iniciado por Michael Menduno, para nós, significa manter o compromisso com:

precisão técnica,

independência editorial,

responsabilidade pública,

respeito absoluto à realidade operacional do mergulho.

Mais do que preservar nomes, nossa missão é preservar o que realmente importa:

o pensamento crítico aplicado ao mergulho.




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