ARTROSE EM MERGULHADORES PROFISSIONAIS - Bases científicas, mecanismos fisiopatológicos e implicações operacionais
ARTROSE EM MERGULHADORES PROFISSIONAIS
Introdução
A artrose, denominada na literatura médica como osteoartrite (OA), é uma doença crônica das articulações caracterizada pela degeneração progressiva da cartilagem articular, remodelação do osso subcondral, formação de osteófitos e inflamação sinovial de baixo grau. Durante décadas, foi descrita como consequência inevitável do envelhecimento. Essa interpretação foi amplamente superada.
A literatura científica contemporânea demonstra que a osteoartrite é uma doença multifatorial, fortemente dependente de carga mecânica cumulativa, microtrauma repetitivo e falhas nos mecanismos de reparo tecidual (Loeser et al., 2012; Hunter & Bierma-Zeinstra, 2019).
No mergulho profissional, esses fatores assumem contornos específicos. Além da sobrecarga biomecânica típica de atividades pesadas, o mergulhador está exposto a ambiente hiperbárico, movimentos resistidos, posturas assimétricas prolongadas e eventos de carga impulsiva, muitas vezes naturalizados pela rotina operacional. O resultado é um cenário altamente favorável ao desenvolvimento precoce e progressivo da artrose.
1. O conceito moderno de artrose: a articulação como um órgão
Estudos fundamentais redefiniram a artrose como uma doença da articulação como um todo, e não apenas da cartilagem (Loeser et al., 2012). O processo envolve:
- Cartilagem articular
- Osso subcondral
- Sinóvia
- Ligamentos
- Musculatura periarticular
Sob cargas mecânicas repetidas acima da capacidade adaptativa do tecido, ocorre:
- Ativação de metaloproteinases
- Apoptose de condrócitos
- Microfissuração óssea
- Inflamação sinovial crônica de baixo grau
Esses mecanismos são bem descritos em estudos histológicos e biomecânicos (Goldring & Goldring, 2007).
2. Sobrecarga mecânica ocupacional no mergulho
A relação entre trabalho físico pesado e artrose é amplamente documentada. Estudos epidemiológicos associam osteoartrite de joelho e quadril a atividades com:
- Levantamento repetitivo de carga
- Posturas forçadas
- Instabilidade do apoio
- Esforço sustentado
(Coggon et al., 2000; Palmer, 2012).
No mergulho profissional, essa sobrecarga apresenta características próprias:
- Equipamentos de grande massa funcional
- Resistência hidrodinâmica contínua
- Necessidade de estabilização corporal permanente
- Trabalho frequentemente realizado em posições não neutras
Embora o empuxo reduza o peso aparente, a carga articular funcional permanece elevada, especialmente em tarefas estáticas ou de precisão, como demonstrado em análises biomecânicas de trabalho subaquático (Reilly et al., 2006).
3. Microtrauma repetitivo e cargas impulsivas: o papel crítico do sino e da cesta de mergulho
A literatura sobre osteoartrite ocupacional reconhece o microtrauma repetitivo como mecanismo central da degeneração articular precoce (Felson, 2013; Burr & Radin, 2003). No mergulho profissional, esse mecanismo é potencializado pela presença de cargas impulsivas de alta magnitude, frequentemente subestimadas.
Além das fontes clássicas de microtrauma — escadas verticais, apoio em superfícies rígidas, vibração de ferramentas — destaca-se um fator operacional crítico: a entrada e saída do mergulhador do sino ou da cesta de mergulho.
3.1 O repuxo hidrodinâmico
Durante a imersão ou emersão do sino/cesta, especialmente em condições de heave, swell ou corrente, o mergulhador pode sofrer repuxos abruptos, decorrentes da interação entre:
- Movimento vertical da embarcação
- Inércia do sino ou da cesta
- Variação súbita da tensão no umbilical
- Diferença de velocidade entre equipamento e corpo
Esse repuxo gera forças de tração súbitas, transmitidas diretamente às articulações, com destaque para ombros, quadris e coluna lombar. Do ponto de vista biomecânico, trata-se de carga impulsiva de alta taxa de carregamento, um padrão reconhecidamente lesivo ao osso subcondral e à cartilagem (Burr & Radin, 2003).
3.2 Impacto cumulativo das cargas impulsivas
Estudos experimentais demonstram que impactos repetidos, mesmo que espaçados no tempo, produzem microfissuras ósseas, alterações na matriz cartilaginosa e redução da capacidade de absorção de carga (Radcliffe & Taylor, 2007).
No mergulho profissional, o problema não é o evento isolado, mas a repetição ao longo da carreira, frequentemente normalizada como parte inerente da operação.
3.3 Ausência de feedback imediato
No ambiente subaquático, a percepção de dor pode ser atenuada, a prioridade operacional inibe a interrupção da tarefa e microlesões não são registradas. Isso favorece o modelo de falha estrutural cumulativa, amplamente aceito na biomecânica ortopédica (Burr & Radin, 2003).
4. Ambiente hiperbárico e falha de reparo tecidual
Cartilagem articular e osso subcondral possuem baixa perfusão sanguínea. Estudos de fisiologia do mergulho indicam que a exposição à pressão altera perfusão e metabolismo tecidual (Brubakk & Neuman, 2003).
Embora não exista relação causal direta comprovada entre pressão e artrose, há forte plausibilidade biológica de que o reparo de microlesões seja menos eficiente, a regeneração cartilaginosa seja prejudicada e lesões subclínicas se acumulem. Nesse contexto, a artrose do mergulhador deve ser entendida como degeneração por falha de reparo, não apenas por desgaste.
5. Interface entre artrose e osteonecrose disbárica
A osteonecrose disbárica (DON) é uma patologia ocupacional bem documentada em mergulhadores, caracterizada por necrose óssea avascular associada à exposição hiperbárica (Hills, 1977; Davidson et al., 1981).
Embora distinta da artrose, a DON pode comprometer o osso subcondral, alterar a biomecânica articular e acelerar a degeneração cartilaginosa adjacente (Bennett & Elliott, 2003). Em articulações como o quadril, artrose e osteonecrose podem coexistir, potencializando perda funcional.
6. Articulações mais afetadas
- Quadril: carga axial elevada e associação com DON
- Joelhos: flexão repetitiva e microimpactos
- Coluna lombar: compressão, vibração e alavanca
- Ombros: tração, elevação prolongada e repuxos
(Felson et al., 2000; Seidler et al., 2009; van der Windt et al., 2000).
7. Prevenção baseada em evidência
A literatura é inequívoca: não existe prevenção eficaz centrada apenas no indivíduo. Medidas efetivas incluem:
- Redução da carga cumulativa
- Planejamento operacional para minimizar repuxos
- Limitação de ciclos de entrada/saída do sino
- Alternância de tarefas
- Ergonomia aplicada ao ambiente subaquático
Avaliações médicas devem ser longitudinais, focadas em articulações críticas, e não apenas em aptidão imediata (Palmer, 2012; Hunter & Bierma-Zeinstra, 2019).
Conclusão
A artrose em mergulhadores profissionais não é um efeito colateral da idade. É o resultado previsível da interação entre sobrecarga mecânica crônica, microtrauma repetitivo, cargas impulsivas associadas ao sino ou cesta, falhas de reparo tecidual e, em alguns casos, patologias disbáricas ósseas.
No mergulho profissional, a artrose não surge por acaso. Ela é construída silenciosamente pelas decisões técnicas, operacionais e médicas que estruturam a carreira do mergulhador.
Referências científicas
- Bennett, P. B., & Elliott, D. H. The Physiology and Medicine of Diving.
- Brubakk, A. O., & Neuman, T. S. Physiology and Medicine of Diving.
- Burr, D. B., & Radin, E. L. Microdamage and microcrack growth in bone.
- Coggon, D. et al. Occupational physical activities and osteoarthritis of the knee.
- Felson, D. T. Osteoarthritis as a disease of mechanics.
- Goldring, M. B., & Goldring, S. R. Osteoarthritis.
- Hills, B. A. Decompression sickness.
- Hunter, D. J., & Bierma-Zeinstra, S. Osteoarthritis.
- Loeser, R. F. et al. Osteoarthritis: a disease of the joint as an organ.
- Palmer, K. T. Occupational activities and osteoarthritis.

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