Diomedes Caetano Ferreira de Moraes
Um dos pioneiros da soldagem subaquática e hiperbárica no Brasil
A história da soldagem subaquática no Brasil passa, necessariamente, por trajetórias individuais raras. Uma delas é a de Diomedes Caetano Ferreira de Moraes, profissional que participou diretamente dos primeiros marcos técnicos da soldagem molhada e da soldagem hiperbárica em águas profundas no país.
Formação técnica e entrada na indústria naval (1977–1979)
Diomedes iniciou sua formação em soldagem no SENAI, em 1977, período em que a indústria naval brasileira vivia forte expansão impulsionada pelos primeiros grandes projetos offshore. Em 1979, ingressou na Ishikawajima do Brasil (Ishibras), onde participou da construção de plataformas que se tornariam referência histórica no setor:
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Essa experiência consolidou sua base como soldador industrial antes de qualquer contato com o mergulho profissional — um ponto fundamental para entender o modelo técnico adotado nos anos seguintes.
A mudança estratégica: do soldador ao mergulhador (1982)
Em 1982, a empresa Subaquática adotou uma estratégia pouco comum para a época: em vez de formar soldadores a partir de mergulhadores, algo que não havia entregue os resultados esperados, decidiu transformar soldadores experientes em mergulhadores profissionais.
Diomedes foi um dos selecionados.
Após o curso de mergulho no Rio de Janeiro, o grupo seguiu para São Paulo, onde realizou treinamento específico de soldagem molhada na Castolin, utilizando elétrodos desenvolvidos para ambiente submerso.
Primeira obra de soldagem molhada no Brasil (1982)
A primeira aplicação operacional ocorreu em Natal (RN), a 15 metros de profundidade. Tratava-se de um teste decisivo: validar, em campo, um procedimento ainda pouco dominado no país.
O resultado foi emblemático. A primeira solda executada por Diomedes foi 100% aprovada em ensaio radiográfico (raio-X), um feito relevante considerando as limitações técnicas da soldagem molhada na época.
O marco histórico da soldagem hiperbárica (1983)
Em 1983, surgiu um desafio sem precedentes no Brasil: a realização de uma soldagem hiperbárica em grande profundidade, na Plataforma P-6, a 98 metros.
O procedimento utilizava processo TIG, com atmosfera controlada de argônio, executado em ambiente seco, dentro de uma câmara hiperbárica submersa.
Para viabilizar a operação, Diomedes e a equipe passaram por uma etapa crítica de preparação no Centro Hiperbárico de Bonsucesso (RJ), onde permaneceram 11 dias em saturação, exclusivamente para qualificar o procedimento técnico a 100 metros antes da execução offshore.
Essa operação é reconhecida como a primeira soldagem hiperbárica realizada no Brasil.
Uma técnica rara, mesmo décadas depois
A complexidade, o custo e os riscos da soldagem hiperbárica fizeram com que esse tipo de operação permanecesse extremamente raro no país.
- Em 1989, Diomedes participou da segunda soldagem hiperbárica realizada no Brasil
- Até hoje, o número total de soldas hiperbáricas executadas no país é muito limitado
Carreira em saturação e grandes profundidades
Ao longo da carreira, Diomedes acumulou aproximadamente 60 mergulhos em saturação. Em duas ocasiões, participou de operações que atingiram 310 metros de profundidade.
Esses números refletem um período histórico em que o mergulho humano ainda era parte central da engenharia offshore profunda, antes da expansão massiva de sistemas remotos.
Encerramento da carreira
Diomedes encerrou sua atividade operacional no mergulho e se aposentou em 2013, após mais de 30 anos de atuação direta na soldagem subaquática e hiperbárica brasileira.
Reconhecimentos
Ao revisitar sua trajetória, Diomedes faz questão de reconhecer pessoas fundamentais no início da carreira:
- Ivanete da Silva Pinto, pelo apoio decisivo nos primeiros passos
- Engenheiro Luiz Roberto Coragem, então chefe do departamento de soldagem da Subaquática
Seu percurso representa uma fase específica da engenharia offshore brasileira, marcada por experimentação técnica, risco controlado e elevada exigência de qualificação humana.
A trajetória de Diomedes ultrapassa os limites da categoria profissional e se inscreve no patrimônio histórico da engenharia offshore brasileira. Sua atuação ocorreu em um período em que não havia manuais consolidados, precedentes nacionais ou margens amplas para erro — apenas conhecimento técnico, rigor operacional e responsabilidade humana diante de decisões irreversíveis. Ao participar das primeiras soldagens molhadas e da primeira soldagem hiperbárica realizada no Brasil, Diomedes ajudou a estabelecer bases técnicas que sustentaram décadas de operações subsequentes, mesmo quando seu nome permaneceu fora dos registros oficiais e das narrativas institucionais. Trata-se de um pioneiro cuja contribuição é estrutural, silenciosa e duradoura, plenamente digna de reconhecimento público, homenagens formais e honrarias que preservem a memória técnica de um país que avançou no mar graças a profissionais como ele.
Depoimento completo em vídeo produzido pelo canal "Saturation Diver Fred Nery"(referência histórica):
https://youtu.be/LO-2vIMMp9w

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