Compressores e Vasos de Pressão Engenharia de falhas, riscos termoquímicos e acidentes recorrentes em sistemas de ar
Compressores e Vasos de Pressão
Engenharia de falhas, riscos termoquímicos e acidentes recorrentes em sistemas de ar comprimido na indústria e no mergulho profissional raso
Mundo do Mergulho — Revista Técnica | Engenharia, Segurança e Operações Subaquáticas
Compressores de ar e vasos de pressão estão entre os equipamentos mais difundidos da engenharia industrial moderna. Presentes em refinarias, estaleiros, plataformas offshore, obras civis, mineração e operações subaquáticas, esses sistemas são frequentemente percebidos como maduros, estáveis e plenamente dominados do ponto de vista técnico.
Essa percepção, no entanto, contrasta com os dados empíricos de acidentes, falhas graves, intoxicações e eventos fatais registrados ao longo das últimas décadas. Na maioria dos casos, o problema não está na inexistência de normas, mas na compreensão incompleta da natureza física, química e energética envolvida na compressão e no armazenamento de gases.
No mergulho profissional raso — tipicamente realizado entre a superfície e profundidades inferiores a 30 metros — esse risco assume uma dimensão adicional. O ar comprimido deixa de ser um insumo industrial e passa a ser um meio respiratório de suporte direto à vida. Qualquer degradação química ou falha estrutural tem impacto imediato e potencialmente irreversível sobre o mergulhador.
Compressores de ar: muito além da mecânica
A análise convencional de compressores de ar costuma concentrar-se em aspectos mecânicos: pistões, anéis, válvulas, mancais, sistemas de acionamento e capacidade volumétrica. Embora esses elementos sejam fundamentais, eles representam apenas parte do problema.
Um compressor é, essencialmente, um reator termoquímico não intencional. Durante o processo de compressão, o ar atmosférico é submetido a ciclos sucessivos de elevação de pressão e temperatura, frequentemente ultrapassando centenas de graus Celsius em pontos localizados.
Em condições normais de operação, ocorrem simultaneamente:
- aquecimento intenso do ar comprimido;
- oxidação acelerada de óleos lubrificantes;
- pirólise de hidrocarbonetos em zonas quentes;
- formação de depósitos carbonizados;
- liberação de subprodutos tóxicos.
Esses processos não são falhas excepcionais. São fenômenos inerentes ao funcionamento do equipamento. O risco emerge quando não há controle térmico adequado, quando a manutenção é baseada apenas em horas de uso ou quando se presume que pressão e vazão são indicadores suficientes de segurança.
Instrumentos tradicionais — manômetros, termômetros externos, pressostatos e válvulas de alívio — não fornecem qualquer informação sobre a qualidade química do ar. Um compressor pode operar dentro de todos os parâmetros mecânicos e ainda assim produzir um ar respirável letal.
Monóxido de carbono (CO): geração interna e risco invisível
Entre todos os contaminantes associados à compressão de ar, o monóxido de carbono (CO) é o mais crítico. Sua periculosidade decorre de três fatores combinados: toxicidade elevada, ausência de propriedades sensoriais e efeito fisiológico amplificado sob pressão.
Diferentemente do senso comum, a maioria dos casos de contaminação por CO não está associada a motores a combustão externos. Em operações de mergulho profissional, a origem mais frequente é a geração interna no próprio compressor.
Os principais mecanismos incluem:
- combustão incompleta de óleo lubrificante em cabeçotes superaquecidos;
- carbonização de resíduos em válvulas e estágios;
- falhas de lubrificação ou uso de óleos inadequados;
- operação fora da faixa térmica de projeto;
- deficiência de resfriamento entre estágios.
No mergulho, o risco é potencializado pela pressão parcial. À medida que a profundidade aumenta, a afinidade do CO pela hemoglobina torna-se ainda mais dominante, reduzindo drasticamente a capacidade de transporte de oxigênio.
Os efeitos incluem:
- comprometimento cognitivo;
- redução da capacidade de julgamento;
- lentidão de resposta;
- perda de consciência sem aviso;
- afogamento secundário.
Vasos de pressão: degradação lenta, falha violenta
Vasos de pressão armazenam energia potencial significativa. Ao contrário de estruturas estáticas, esses equipamentos estão sujeitos a ciclos contínuos de carga, descarga, variação térmica e presença de condensado.
A experiência industrial demonstra que a maioria das rupturas não ocorre por sobrepressão súbita, mas por perda progressiva de integridade estrutural.
Os mecanismos mais comuns de falha incluem:
- corrosão interna induzida por água condensada;
- acúmulo de contaminantes ácidos;
- redução gradual da espessura do material;
- fadiga por ciclos repetidos;
- trincas não detectáveis externamente;
- drenagem inadequada ou inexistente.
Inspeções predominantemente visuais, ainda comuns em pequenas operações de mergulho, são insuficientes para detectar esses processos. A documentação pode estar em dia enquanto o material estrutural já perdeu suas margens mínimas de segurança.
Acidentes reais: padrões recorrentes
Caso 1 — Intoxicação por CO em mergulho raso
Compressor operando dentro da pressão nominal. Ausência de monitoramento contínuo de CO. Geração interna de contaminante por superaquecimento. Mergulhadores apresentaram confusão mental e desorientação. Operação interrompida no limite do tempo seguro.
Medidas preventivas: sensor contínuo de CO, controle térmico rigoroso, análise periódica do ar.
Caso 2 — Ruptura de vaso de pressão em base de mergulho
Vaso certificado e dentro do prazo legal. Inspeções majoritariamente visuais. Corrosão interna severa por condensado. Ruptura súbita durante pressurização.
Medidas preventivas: drenagem documentada, inspeção interna, monitoramento de espessura.
Caso 3 — Parada operacional por contaminação crônica
Pequenas concentrações de CO ao longo do tempo. Sintomas inespecíficos ignorados. Normalização do desvio. Interdição após análise laboratorial tardia.

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