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As Doenças do Mergulho Profissional

As Doenças do Mergulho Profissional

Análise técnica, clínica e institucional do adoecimento hiperbárico ocupacional

Introdução

O mergulho profissional expõe o trabalhador a um conjunto singular de riscos físicos, fisiológicos e biomecânicos. Essas exposições produzem um espectro amplo de doenças que não podem ser compreendidas de forma fragmentada nem reduzidas a eventos agudos isolados.

A leitura institucional restritiva — focada quase exclusivamente na Doença Descompressiva clássica — contribui para subdiagnóstico, laudos frágeis e negação sistemática do nexo ocupacional.

Esta reportagem do Mundo do Mergulho organiza, de forma integrada, as principais doenças do mergulho profissional, tratando cada uma como um bloco técnico completo: fisiopatologia, manifestações clínicas, exames úteis e achados comumente descritos em laudos médicos e periciais.


Doença Descompressiva (DCS / Doença Descompressiva – DD)

A Doença Descompressiva resulta da formação de bolhas de gases inertes, principalmente nitrogênio, nos tecidos e/ou na circulação após a redução da pressão ambiente. Trata-se de fenômeno multifatorial e probabilístico, conforme descrito nos manuais da U.S. Navy, NOAA e DAN.

No mergulho profissional, fatores como repetitividade de mergulhos, esforço físico, trabalho em água fria, desidratação, fadiga, perfis de saturação e susceptibilidade individual ampliam o risco, mesmo quando tabelas são formalmente respeitadas.

DCS Tipo I

Caracteriza-se por manifestações predominantemente osteomusculares, cutâneas e linfáticas. Dor profunda em grandes articulações (ombros, quadris, joelhos), prurido, eritema e livedo são descritos classicamente.

Exames de imagem são frequentemente normais. A ausência de achados objetivos não exclui o diagnóstico, sendo erro técnico tratá-la como diagnóstico de exclusão. Esse entendimento é explícito nos manuais militares e na literatura da DAN.

DCS Tipo II

Envolve comprometimento neurológico, vestibular, respiratório ou sistêmico. Manifesta-se por déficits motores ou sensitivos, alterações cognitivas, disfunções medulares, vertigem e fadiga intensa desproporcional.

A ressonância magnética de encéfalo e medula é o exame de maior valor diagnóstico, podendo demonstrar áreas isquêmicas, lesões da substância branca e sinais compatíveis com insulto microembólico. A tomografia apresenta baixa sensibilidade.

O Doppler transcraniano pode evidenciar shunts direita-esquerda e carga de microbolhas, conforme descrito por Spencer e Kisman-Masurel. Exames normais são frequentes em avaliações tardias, sendo erro pericial recorrente classificar achados como “microangiopatia inespecífica” sem correlação hiperbárica.


Embolia Gasosa Arterial (AGE)

A Embolia Gasosa Arterial ocorre quando bolhas gasosas atingem a circulação arterial, geralmente associada a barotrauma pulmonar durante a ascensão. Diferentemente da DCS, trata-se de um evento abrupto, grave e potencialmente fatal.

Manifestações clínicas

Perda súbita de consciência, déficits neurológicos extensos, convulsões, arritmias, colapso hemodinâmico e parada cardiorrespiratória.

Exames úteis e achados comuns

A tomografia computadorizada pode ser normal nas fases iniciais. A ressonância magnética pode evidenciar áreas extensas de isquemia cerebral. A ausência de achados radiológicos imediatos não exclui o diagnóstico quando há correlação operacional clara.


Barotraumas

Ouvido Médio e Interno

Manifestações clínicas: dor intensa, plenitude auricular, vertigem, zumbido e perda auditiva.

Exames e achados: audiometria com perda neurossensorial ou condutiva; testes vestibulares alterados; RM indicada em suspeita de comprometimento do ouvido interno.

Seios da Face e Barotrauma Dental

Manifestações clínicas: dor facial intensa ou dor dentária aguda durante o mergulho.

Exames e achados: tomografia evidenciando espessamento mucoso, níveis hidroaéreos ou alterações estruturais predisponentes.

Barotrauma Pulmonar

Manifestações clínicas: dispneia súbita, dor torácica, enfisema subcutâneo, podendo evoluir para pneumotórax ou AGE.

Exames e achados: radiografia e tomografia de tórax com pneumotórax, enfisema mediastinal ou intersticial.


Necrose Asséptica da Cabeça do Fêmur (NAV)

A NAV relacionada ao mergulho profissional decorre de insultos microvasculares ósseos cumulativos associados à exposição hiperbárica repetitiva, podendo manifestar-se meses ou anos após a exposição.

Manifestações clínicas

Dor inguinal progressiva, limitação funcional, claudicação e redução da mobilidade do quadril.

Exames úteis e achados comuns

A ressonância magnética de quadril é o padrão-ouro, identificando edema ósseo, necrose subcondral e colapso inicial da cabeça femoral. Radiografias simples são frequentemente normais nas fases iniciais.


DORT no Mergulho Profissional

As Doenças Osteomusculares Relacionadas ao Trabalho no mergulho profissional decorrem da combinação de hiperpressão, esforço físico intenso, posturas forçadas, uso prolongado de ferramentas subaquáticas, vibração e carga estática do equipamento.

Exames e achados comuns

A ressonância magnética evidencia tendinopatias crônicas, bursites, lesões labrais, degeneração discal e alterações incompatíveis com a idade cronológica, frequentemente descritas de forma inadequada como degenerativas comuns.


Toxicidade por Oxigênio

Manifestações clínicas: convulsões súbitas submersas, alterações visuais, náuseas e comprometimento pulmonar.

Exames e achados: diagnóstico clínico-operacional baseado no perfil de mergulho; exames de imagem geralmente normais, o que leva à descaracterização indevida do evento.


Retenção de CO₂ e Hipercapnia

Manifestações clínicas: cefaleia intensa, dispneia, confusão mental, ansiedade extrema e perda de consciência.

Exames e achados: gasometria arterial pode demonstrar hipercapnia tardia; exames normais são comuns no atendimento inicial.


Narcoses por Gases Inertes

Manifestações clínicas: euforia, julgamento prejudicado, lentificação cognitiva, alterações de coordenação e aumento do risco operacional.

Exames e achados: não há exame específico; reconhecimento é exclusivamente clínico-operacional.


Considerações finais

O adoecimento no mergulho profissional é cumulativo, sistêmico e frequentemente tardio. A fragmentação diagnóstica e a valorização excessiva de exames normais sustentam laudos frágeis e decisões institucionais inadequadas.

O Mundo do Mergulho reafirma seu compromisso com uma abordagem técnica, independente e orientada à decisão, voltada à gestão responsável do risco no mergulho profissional.


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