Quando a Empresa Parece Excelente para Fora — e Disfuncional por Dentro
O erro estratégico de priorizar o cliente externo em detrimento do cliente interno
Introdução
Em setores de alto risco, como o mergulho comercial, a imagem de excelência vendida aos grandes contratantes frequentemente não corresponde à realidade vivida pelos colaboradores que sustentam a operação. Esse descompasso não é apenas um problema de clima organizacional — é um erro estratégico com impacto direto em segurança, produtividade, conformidade regulatória e custo real da operação.
Empresas que investem pesadamente em parecer “impecáveis” para fora, enquanto internamente operam sob pressão, improviso e desgaste humano, constroem uma estrutura frágil. Funciona até o dia em que falha. E, quando falha, o custo raramente é apenas financeiro.
Cliente externo vs. cliente interno: uma falsa hierarquia
O discurso corporativo costuma afirmar que “o cliente vem em primeiro lugar”. O problema surge quando essa máxima é interpretada como licença para:
- Postergar manutenção de equipamentos para cumprir cronogramas agressivos
- Normalizar jornadas excessivas e descanso insuficiente
- Silenciar alertas técnicos feitos por quem está no campo
- Tratar segurança, treinamento e bem-estar como custo, não como investimento
Nesse modelo, o cliente externo é tratado como ativo estratégico, enquanto o cliente interno — o colaborador — é tratado como recurso descartável. O paradoxo é simples: quem entrega valor ao cliente externo é, invariavelmente, o cliente interno.
A ilusão da excelência operacional
Para o contratante, a empresa apresenta:
- Procedimentos bem escritos
- Certificações em dia
- Relatórios esteticamente impecáveis
- Discurso alinhado a “best practices”
Para o colaborador, a experiência real muitas vezes é:
- POPs que não refletem a prática operacional
- Pressão para “dar um jeito” fora do procedimento
- Falta de peças, ferramentas ou suporte técnico adequado
- Medo de reportar desvios por risco de retaliação ou estigmatização
Essa dissociação cria um ambiente onde o sistema parece seguro no papel, mas é inseguro na prática.
Remuneração incompatível com risco e com os ganhos do setor
Há um fator frequentemente ignorado — ou convenientemente evitado — nessa equação: a remuneração real frente ao risco assumido e aos ganhos gerados pela atividade.
Em operações de alto risco, exigir comprometimento extremo, disciplina operacional rigorosa e tomada constante de decisão crítica, oferecendo uma remuneração que não reflete:
- O nível de risco físico e psicológico
- A responsabilidade técnica envolvida
- A exposição legal e profissional do colaborador
- Os ganhos financeiros do contrato e do setor
não é apenas incoerente — é estruturalmente insustentável. Empresas que lucram significativamente em contratos complexos, mas mantêm seus profissionais na linha de frente com salários comprimidos, bônus inexistentes ou benefícios mínimos, transmitem uma mensagem clara: o risco é individual, o ganho é corporativo. Isso mina qualquer discurso de “valorização das pessoas”.
Distribuição de lucros e participação acionária: alinhamento real de interesses
Organizações maduras entendem que ninguém “veste a camisa” apenas por discurso institucional. Vestir a camisa se torna real quando há alinhamento econômico entre quem decide, quem executa e quem assume o risco.
Modelos como:
- Participação nos Lucros e Resultados (PLR) transparente
- Bônus vinculados a desempenho seguro e sustentável
- Programas de participação acionária ou societária
têm impacto profundo na cultura operacional. Eles transformam o colaborador de mero executor em parte interessada no sucesso e na longevidade da operação. Quando o profissional entende que eficiência, segurança e qualidade também retornam para ele — e não apenas para o acionista — o comportamento no campo muda de forma estrutural.
Impacto direto na segurança e no risco operacional
Organizações que negligenciam o cliente interno tendem a apresentar:
- Subnotificação de incidentes e quase-acidentes
- Cultura de silêncio operacional
- Aumento de erros humanos induzidos por fadiga, estresse e desengajamento
- Normalização do desvio
Em atividades de mergulho comercial, isso se traduz em maior probabilidade de acidentes graves, falhas de equipamento não reportadas, decisões técnicas tomadas sob pressão comercial e perda de margem de segurança. Não se trata de “falha individual”. Trata-se de falha sistêmica de governança operacional, agravada quando o risco não é compensado de forma justa.
O custo invisível para o negócio
Ignorar o cliente interno — inclusive sob o aspecto financeiro — gera custos que raramente aparecem no orçamento inicial do contrato:
- Rotatividade elevada e perda de profissionais experientes
- Queda de produtividade real no médio prazo
- Aumento de afastamentos médicos
- Litígios trabalhistas e passivos jurídicos
- Danos reputacionais após incidentes
Empresas que parecem “baratas” no início frequentemente se tornam as mais caras ao longo do ciclo operacional.
Cultura organizacional não se comunica — ela se pratica
Nenhuma campanha institucional, código de ética ou discurso de liderança compensa um ambiente onde:
- O colaborador não é ouvido
- A segurança é negociável
- O erro é punido, não analisado
- A entrega comercial vale mais que a integridade operacional
- O risco é alto, mas o reconhecimento é baixo
O colaborador percebe rapidamente a diferença entre o que a empresa declara e o que ela tolera — inclusive na folha de pagamento. E é essa percepção que define o comportamento real no campo.
O papel do decisor: onde o erro se consolida
Esse problema raramente nasce na linha de frente. Ele é consolidado quando a liderança:
- Premia apenas metas comerciais
- Ignora indicadores de fadiga, retrabalho e incidentes
- Confunde resiliência humana com robustez do sistema
- Trata questionamentos técnicos como resistência ou indisciplina
- Naturaliza margens altas para a empresa e margens mínimas para quem executa
Decisores que não enxergam o colaborador como cliente interno estratégico estão, na prática, apostando que nada dará errado. Em operações de risco, essa é uma aposta historicamente perdida.
Conclusão
Parecer incrível para o cliente externo enquanto se parece terrível para o cliente interno não é sinal de eficiência — é sinal de desequilíbrio estrutural. Empresas realmente sólidas constroem sua reputação de fora para dentro a partir de dentro para fora. Valorizam o colaborador não por altruísmo, mas por inteligência operacional — inclusive reconhecendo financeiramente o risco, a responsabilidade e a geração de valor.
No fim, a pergunta que separa organizações maduras das frágeis é simples:
Se o seu colaborador fosse seu cliente — e analisasse salário, risco, participação nos resultados e respeito operacional — ele contrataria sua empresa?
Em setores onde erro custa vidas, essa resposta define o futuro do negócio.
Links Relacionados no Mundo do Mergulho
- Acidentes no mergulho profissional – seleção de vídeos (contexto de risco e segurança)
- Delta P – Conheça os perigos da pressão diferencial no mergulho (análise de risco operacional)
- Regulamentação da profissão: Mergulhador Profissional (contexto profissional e normativo)
- Byford Dolphin – o maior acidente de mergulho profissional da história (caso clássico de falha sistêmica)

Comentários
Postar um comentário