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CÂMARAS HIPERBÁRICAS: O AMBIENTE MAIS SEGURO DO MERGULHO — ATÉ QUE A FALHA HUMANA ASSUMA O CONTROLE

 


CÂMARAS HIPERBÁRICAS: O AMBIENTE MAIS SEGURO DO MERGULHO — ATÉ QUE A FALHA HUMANA ASSUMA O CONTROLE

Incêndios, contaminação, improviso técnico e o déficit de qualificação que transforma sistemas de suporte à vida em risco operacional extremo

No imaginário do mergulho profissional, a câmara hiperbárica ocupa um lugar quase sagrado. É ali que vidas são preservadas após exposições extremas, onde a fisiologia humana é reconduzida ao equilíbrio e onde erros cometidos no fundo podem ser corrigidos com método e ciência.

Mas essa percepção esconde uma realidade incômoda: a câmara hiperbárica só é segura enquanto for operada por sistemas íntegros e por profissionais plenamente qualificados. Quando isso não ocorre, ela deixa de ser um refúgio e passa a ser um ambiente de risco amplificado, onde falhas técnicas, decisões erradas e improvisos não admitem correção.

1. Um sistema que não tolera erro

Diferentemente de outros equipamentos do mergulho, a câmara hiperbárica reúne simultaneamente:

vaso de pressão,

sistema respiratório artificial,

ambiente médico,

espaço confinado,

operação humana contínua.

Cada variável depende da outra. Não existe margem para “mais ou menos” conhecimento.

Ainda assim, na prática operacional — especialmente no contexto nacional — o que se observa é a normalização de lacunas graves de formação.

2. Incêndio em câmara hiperbárica: um risco raro, mas devastador

Incêndios em câmaras hiperbáricas são estatisticamente pouco frequentes, mas quase sempre catastróficos.

As razões são conhecidas:

atmosfera enriquecida com oxigênio,

pressão elevada acelerando reações químicas,

materiais comuns que se tornam altamente inflamáveis,

ausência de rotas imediatas de fuga.

Nessas condições, segundos definem o desfecho.

3. O erro recorrente e pouco discutido: extintores inadequados

Um dos problemas mais graves — e surpreendentemente comuns — é a presença ou mobilização de extintores de incêndio inadequados dentro de câmaras hiperbáricas.

Situações já observadas em operações reais:

extintores de pó químico seco posicionados no interior da câmara,

cilindros de CO₂ sem certificação para uso sob pressão externa,

ausência de avaliação dos efeitos fisiológicos do agente extintor em ambiente hiperbárico.

O resultado prático:

comprometimento imediato da respiração,

visibilidade zero,

contaminação de máscaras, válvulas e linhas de oxigênio,

risco de hipercapnia e perda de consciência,

criação de uma segunda emergência dentro da primeira.

Em resumo: o equipamento supostamente destinado à segurança passa a ser parte do problema.

4. A falsa crença no “combate ao fogo”

Em ambiente hiperbárico, a lógica tradicional de combate a incêndio nem sempre se aplica.

Protocolos tecnicamente corretos priorizam:

prevenção absoluta,

controle rigoroso de materiais inflamáveis,

redução ou isolamento do fornecimento de oxigênio,

decisões rápidas, baseadas em procedimentos previamente treinados.

Improvisar respostas, ou agir por reflexo, pode ser fatal.

5. Contaminação por óleos e hidrocarbonetos: o risco invisível do offshore

Em plataformas de petróleo, FPSOs e embarcações de apoio, a presença de:

óleos hidráulicos,

graxas industriais,

vapores de hidrocarbonetos,

resíduos de combustível,

faz parte do cotidiano operacional.

O problema surge quando essa realidade não é isolada do sistema hiperbárico.

6. Como a contaminação entra na câmara

As vias são conhecidas:

roupas de mergulho contaminadas,

mangueiras e chicotes sem higienização adequada,

sistemas de compressão com manutenção deficiente,

filtros vencidos ou saturados,

óleo de compressor inadequado.

Em ambiente enriquecido com oxigênio, traços mínimos de óleo reduzem drasticamente a temperatura de ignição e transformam superfícies internas em combustível latente.

7. Compressores e a ilusão da “qualidade do ar”

Outro ponto crítico é a confiança excessiva em sistemas de compressão que não passam por auditorias regulares de qualidade do ar.

Problemas recorrentes incluem:

análise inexistente ou esporádica,

filtros utilizados além da vida útil,

by-pass deliberado para “ganho operacional”,

ausência de cultura de rastreabilidade técnica.

Em operações offshore, onde produtividade é frequentemente priorizada, essas falhas deixam de ser exceção e passam a ser rotina.

8. O fator mais negligenciado: profissionais sem qualificação real

Talvez o problema mais sensível — e menos discutido publicamente — seja o déficit de qualificação técnica, inclusive em posições críticas como supervisores de mergulho e operadores hiperbáricos.

Realidade observada no contexto nacional:

profissionais que “decoraram” tabelas, mas não compreendem sua lógica fisiológica,

supervisores incapazes de:

adaptar tabelas a exposições reais,

reconhecer perfis fora do padrão,

responder corretamente a desvios durante o tratamento,

dependência cega de quadros impressos ou softwares, sem entendimento do que está sendo aplicado.

A câmara, nesse cenário, passa a ser operada de forma mecânica, não técnica.

9. O uso incorreto das tabelas: um risco silencioso

Tabelas hiperbáricas não são receitas fixas. Elas exigem:

interpretação,

avaliação clínica,

entendimento da fisiologia do mergulho,

capacidade de tomada de decisão sob pressão.

Quando aplicadas por profissionais despreparados, podem:

agravar quadros de DCS,

mascarar sintomas,

induzir lesões adicionais,

atrasar respostas médicas adequadas.

O risco não está na tabela — está em quem a aplica sem domínio técnico.

10. Cultura operacional: quando o erro vira padrão

A soma de:

equipamentos mal mantidos,

contaminantes tolerados,

extintores inadequados,

supervisão deficiente,

qualificação superficial,

cria um ambiente onde o erro deixa de ser exceção e passa a ser estrutural.

Incidentes menores não são reportados.

Quase-acidentes não geram investigação.

Alertas técnicos são vistos como entraves.

11. O que realmente aumenta a segurança hiperbárica

Experiências internacionais e investigações de acidentes mostram padrões claros:

qualificação profunda e contínua de operadores e supervisores,

domínio real — não decorado — das tabelas,

controle absoluto de materiais que entram na câmara,

sistemas de ar rigorosamente auditados,

equipamentos de emergência certificados para uso hiperbárico,

cultura de segurança que valoriza o reporte, não o silêncio.

12. Conclusão: a câmara não falha sozinha

A câmara hiperbárica não é perigosa por natureza.

Ela se torna perigosa quando:

é tratada como equipamento comum,

é operada por quem não domina sua complexidade,

é inserida em ambientes contaminados sem controle,

é protegida por protocolos que existem apenas no papel.

No mergulho profissional — especialmente no offshore brasileiro — o maior risco não é a pressão, nem o oxigênio.

É a combinação de improviso técnico, formação insuficiente e falsa sensação de controle.

A câmara não perdoa.

E, quando algo dá errado, não há espaço para aprendizado tardio.







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