Inspeção e Manutenção de Vasos de Pressão, Tanques de Volume e Sistemas de Filtragem de Ar no Mergulho Comercial
Inspeção e Manutenção de Vasos de Pressão, Tanques de Volume e Sistemas de Filtragem de Ar no Mergulho Comercial
1. Introdução
No mergulho comercial, os sistemas de suprimento de ar respirável constituem o núcleo do Sistema de Suporte à Vida (SSV). Dentro desse sistema, vasos de pressão, tanques de volume e conjuntos de filtragem de ar representam elementos críticos cuja falha pode resultar em eventos catastróficos, como explosões, contaminação do ar respirável, hipóxia, intoxicações químicas ou acidentes fatais.
Diferentemente do mergulho recreativo, o mergulho profissional opera sob regimes contínuos de fornecimento de ar, pressões elevadas, ciclos prolongados de trabalho e ambientes industriais hostis. Por esse motivo, a inspeção e a manutenção desses equipamentos não são boas práticas opcionais, mas obrigações técnicas, legais e operacionais, amplamente normatizadas no Brasil e internacionalmente.
2. Vasos de Pressão e Tanques de Volume no Mergulho Comercial
2.1 Conceituação Técnica
Vasos de pressão são recipientes destinados à contenção de fluidos sob pressão interna superior à atmosférica. No mergulho comercial, enquadram-se nessa definição:
- Tanques de volume de ar comprimido
- Reservatórios pulmão de sistemas de superfície
- Vasos associados a compressores de ar respirável
Segundo a Norma Regulamentadora NR-13 – Caldeiras, Vasos de Pressão, Tubulações e Tanques Metálicos de Armazenamento, publicada pelo Ministério do Trabalho e Emprego do Brasil, vasos de pressão são equipamentos que operam sob pressão superior à atmosférica e apresentam riscos significativos à integridade física dos trabalhadores (NR-13, versão consolidada 2023).
2.2 Enquadramento Legal e Normativo (Brasil)
No Brasil, todo vaso de pressão utilizado em atividades profissionais está sujeito à NR-13, independentemente do setor industrial, incluindo o mergulho comercial.
A NR-13 estabelece, entre outros pontos:
- Classificação do vaso com base no produto Pressão Máxima de Trabalho (PMTA) × Volume Interno (V)
- Definição de categorias de risco
- Periodicidade mínima de inspeções
- Exigência de prontuário técnico
- Inspeções realizadas por Profissional Legalmente Habilitado (PLH), normalmente engenheiro mecânico
Esses requisitos se aplicam integralmente aos tanques de volume e reservatórios de ar utilizados em sistemas de mergulho profissional.
2.3 Tipos de Inspeção Exigidos
Conforme a NR-13, os vasos de pressão devem ser submetidos aos seguintes tipos de inspeção:
a) Inspeção Inicial
Realizada antes da entrada do equipamento em operação. Inclui exame externo, interno (quando aplicável), verificação dimensional, avaliação de dispositivos de segurança e análise documental.
b) Inspeção Periódica
Realizada em intervalos definidos pela categoria do vaso. Envolve exame visual externo, exame interno (quando tecnicamente possível), medições de espessura por ultrassom e avaliação do estado estrutural.
c) Inspeção Extraordinária
Obrigatória após:
- Acidentes ou falhas operacionais
- Reparos estruturais
- Alteração de condições de operação
- Longos períodos fora de serviço
Essas diretrizes estão descritas explicitamente na NR-13, Anexos II e III (Ministério do Trabalho, 2023).
2.4 Métodos Técnicos de Inspeção
- Exame visual externo e interno
- Medição de espessura por ultrassom para avaliação de corrosão
- Ensaios não destrutivos (END), como líquido penetrante, partículas magnéticas ou radiografia, conforme avaliação técnica
- Teste hidrostático, quando requerido pelo histórico do equipamento ou pela norma
A literatura de engenharia de pressão (ASME Boiler and Pressure Vessel Code, Seção VIII) reforça que a integridade estrutural de vasos sujeitos a ciclos frequentes de pressurização deve ser monitorada continuamente, com atenção especial à fadiga do material.
3. Sistemas de Filtragem de Ar Respirável
3.1 Importância para a Saúde do Mergulhador
O ar fornecido ao mergulhador é comprimido, armazenado e distribuído por sistemas mecânicos que introduzem contaminantes potenciais. Estudos clássicos de medicina do mergulho, como os descritos por Edmonds, Lowry e Pennefather em Diving and Subaquatic Medicine (5ª edição), demonstram que a contaminação do ar respirável está associada a:
- Intoxicação por monóxido de carbono
- Pneumonite química
- Danos neurológicos
- Risco aumentado de doenças descompressivas
3.2 Padrões de Qualidade do Ar Comprimido
A referência internacional mais utilizada para qualidade do ar comprimido é a ISO 8573-1 – Compressed Air – Contaminants and Purity Classes (Organização Internacional de Normalização).
Essa norma classifica o ar comprimido de acordo com limites máximos de:
- Partículas sólidas
- Água (líquida, aerossóis e vapor)
- Óleo (líquido, aerossóis e vapor)
Embora a ISO 8573 seja genérica, ela é amplamente utilizada como base técnica para sistemas de ar respirável em mergulho profissional, sendo complementada por normas específicas de mergulho e medicina hiperbárica.
No contexto do mergulho, a IMCA (International Marine Contractors Association) estabelece que o ar respirável fornecido a mergulhadores deve atender a padrões de pureza compatíveis com os limites médicos aceitos internacionalmente (IMCA D 018 e D 022).
3.3 Tipos de Filtros Utilizados
- Filtros coalescentes, para remoção de água líquida e óleo
- Filtros particulados, para retenção de partículas sólidas
- Elementos adsorventes, como carvão ativado, para remoção de vapores de óleo e contaminantes químicos
- Separadores ar/óleo, integrados aos compressores
A eficiência desses filtros é expressa em micrômetros (µm) e em capacidade de retenção de contaminantes, conforme especificações do fabricante e requisitos operacionais.
3.4 Inspeção e Manutenção dos Elementos Filtrantes
- Inspeção visual periódica dos copos, carcaças e drenos
- Monitoramento da perda de carga (diferencial de pressão) nos filtros
- Substituição preventiva dos elementos filtrantes com base em:
- Horas de operação
- Qualidade do ar ambiente de entrada
- Recomendações do fabricante
- Registro formal de cada substituição e inspeção
Manuais técnicos de compressores de ar respirável e diretrizes da Marinha do Brasil (Diretoria de Portos e Costas – normas de mergulho profissional) destacam que filtros saturados ou mal mantidos são uma das principais causas de contaminação do ar em operações de mergulho.
4. Documentação, Rastreabilidade e Responsabilidade Técnica
- Prontuário do vaso de pressão (NR-13)
- Relatórios de inspeção
- Certificados de ensaios e calibração
- Registros de manutenção e troca de filtros
- Identificação do responsável técnico
A ausência dessa documentação caracteriza não conformidade grave, com implicações legais, trabalhistas e penais para operadores e empresas.
5. Consequências Operacionais da Não Conformidade
- Explosão de vasos de pressão
- Fornecimento de ar contaminado
- Interrupção imediata das operações
- Responsabilização civil e criminal da empresa
- Invalidez permanente ou morte de mergulhadores
Esses riscos não são teóricos, mas amplamente documentados em relatórios de investigação de acidentes industriais e marítimos.
6. Conclusão
A inspeção e manutenção de vasos de pressão, tanques de volume e sistemas de filtragem de ar no mergulho comercial devem ser tratadas como elementos centrais da gestão de risco, e não como simples rotinas de manutenção.
O cumprimento rigoroso da NR-13, aliado à aplicação de normas internacionais como a ISO 8573 e diretrizes técnicas da IMCA, constitui um requisito mínimo para a operação segura, ética e tecnicamente responsável do mergulho profissional.
Referências Técnicas e Bibliográficas
- Ministério do Trabalho e Emprego. NR-13 – Caldeiras, Vasos de Pressão, Tubulações e Tanques Metálicos de Armazenamento, versão consolidada, Brasil, 2023.
- ASME. Boiler and Pressure Vessel Code – Section VIII, American Society of Mechanical Engineers.
- ISO. ISO 8573-1: Compressed Air – Contaminants and Purity Classes, International Organization for Standardization.
- IMCA. D 018 – Code of Practice for the Initial and Periodic Examination, Testing and Certification of Diving Plant and Equipment.
- IMCA. D 022 – Guidance for Diving Supervisors.
- Edmonds, C.; Lowry, C.; Pennefather, J. Diving and Subaquatic Medicine, 5th Edition.
- Marinha do Brasil – Diretoria de Portos e Costas. Normas para Atividade de Mergulho Profissional.

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