Pular para o conteúdo principal

GUERRA SILENCIOSA SOB AS FRONTEIRAS MARÍTIMAS

 


GUERRA SILENCIOSA SOB AS FRONTEIRAS MARÍTIMAS

O papel real, as armas e as estratégias dos mergulhadores de combate na defesa subaquática moderna

1. O PAPEL REAL DO MERGULHADOR DE COMBATE NA DEFESA DE FRONTEIRAS

Ao contrário da narrativa popular, mergulhadores de combate não operam como força de choque contra plataformas navais inimigas. Eles não enfrentam navios de guerra, submarinos ou torpedos em confronto direto. O seu valor estratégico está justamente em atuar fora do eixo clássico do combate, em zonas onde a superioridade tecnológica perde eficiência.

Esses operadores atuam nas camadas invisíveis da defesa marítima, sobretudo em ambientes onde:

o ruído ambiental confunde sensores,

a presença civil limita o uso de força convencional,

e a detecção automatizada apresenta alto índice de falsos positivos.

Ambientes prioritários de atuação

Portos e bases navais

São alvos estratégicos de alto valor, onde uma única sabotagem pode paralisar operações militares e comerciais. Mergulhadores atuam tanto na proteção quanto na detecção preventiva de ameaças submersas.

Estreitos, baías e canais

Gargalos geográficos onde a negação de acesso pode ser mais eficaz do que o combate direto. A interdição subaquática, mesmo temporária, produz efeitos estratégicos desproporcionais.

Infraestrutura crítica subaquática

Cabos, dutos, sensores e estruturas de suporte representam hoje o verdadeiro “território” marítimo. Defender fronteiras significa proteger esses ativos.

Águas rasas e costeiras (Littoral Warfare)

Ambiente hostil à guerra naval tradicional, mas ideal para operações humanas discretas. Aqui, o mergulhador de combate é insubstituível.

➡️ O foco operacional não é destruição aberta, mas:

negação de acesso,

sabotagem seletiva,

coleta de inteligência,

proteção de ativos estratégicos.

2. ARMAS SUBAQUÁTICAS REALMENTE UTILIZADAS POR MERGULHADORES DE COMBATE

2.1 Armas de fogo subaquáticas (uso extremamente específico)

O disparo de projéteis submersos é tecnicamente possível, mas taticamente limitado. A água impõe resistência extrema, reduz alcance, precisão e letalidade.

a) Armas de dardos (supercavitantes)

Essas armas disparam projéteis alongados, em formato de dardo, capazes de criar uma bolha de cavitação parcial ao redor do projétil.

Características:

Alcance extremamente curto

Precisão limitada

Eficácia apenas a poucos metros

Exemplo histórico:

APS (Rússia) e variantes posteriores

📌 Uso real:

Autodefesa em situações extremas

Confrontos raríssimos em ambientes confinados

Proteção durante retirada ou sabotagem

➡️ Não são armas estratégicas, nem determinantes na defesa de fronteiras.

b) Pistolas subaquáticas de defesa

Projetadas para uso ocasional:

Baixa cadência

Pouquíssimo alcance

Dificuldade de aquisição de alvo

Uso:

Defesa pessoal

Situações excepcionais de encontro com ameaça submersa

➡️ Valor tático marginal, irrelevante em termos estratégicos.

2.2 Explosivos subaquáticos (principal ferramenta ofensiva)

Se existe uma arma central na doutrina do mergulhador de combate, ela é o explosivo subaquático especializado.

a) Cargas de demolição

Tipos principais:

Cargas ocas (direcionamento de energia)

Cargas moldadas (perfuração)

Cargas magnéticas (fixação rápida e discreta)

Emprego operacional:

Sabotagem de cascos

Neutralização de sensores e hidrofones

Interdição de canais e passagens críticas

Corte e destruição de pilares, cabos e dutos

Essas cargas permitem:

Alto impacto com baixo volume de explosivo

Ação precisa

Dificuldade de atribuição imediata do ataque

📌 Esta é a principal arma do mergulhador de combate moderno.

b) Minas navais de influência (emprego indireto)

Embora não sejam “armas portadas”, mergulhadores desempenham papel crucial no seu emprego.

Eles podem:

Instalar

Remover

Reprogramar

Tipos:

Magnéticas

Acústicas

De pressão

Vantagens em águas rasas:

Negação de área persistente

Baixo custo relativo

Alto efeito dissuasório

➡️ Ferramenta ideal para controle de acesso em zonas costeiras.

2.3 Armas não cinéticas (cada vez mais relevantes)

A guerra subaquática moderna é cada vez menos explosiva — e mais informacional.

a) Guerra acústica passiva

Mergulhadores são empregados para:

Posicionar sensores clandestinos

Instalar hidrofones passivos

Criar redes de escuta discretas

Objetivos:

Detectar submarinos

Identificar UUVs

Monitorar atividade de mergulhadores inimigos

➡️ A antecipação é, muitas vezes, mais valiosa que a neutralização.

b) Interferência e sabotagem eletrônica

Ações típicas:

Corte de cabos submarinos

Danos físicos a sensores

Neutralização de nós de comunicação submersos

📌 Guerra moderna = controle de infraestrutura, não apenas destruição de plataformas.

3. ESTRATÉGIAS SUBAQUÁTICAS DE DEFESA DE FRONTEIRA

3.1 Defesa em camadas (Layered Underwater Defense)

A defesa subaquática é organizada em níveis sucessivos:

Satélites e ISR marítimo

Patrulha naval e aérea

Sonar fixo e móvel

UUVs e ROVs

Mergulhadores de combate

Os mergulhadores atuam:

Quando sensores falham

Quando o ambiente é ambíguo

Quando a decisão exige julgamento humano

➡️ Última linha invisível da defesa.

3.2 Guerra no ambiente costeiro (Littoral Warfare)

Características:

Alto ruído acústico

Correntes imprevisíveis

Infraestrutura civil densa

Esses fatores reduzem drasticamente a eficiência de sistemas automatizados.

Táticas humanas incluem:

Emboscadas subaquáticas

Interdição temporária de canais

Proteção ativa de portos estratégicos

➡️ O fator humano torna-se decisivo.

3.3 Anti-sabotagem e contra-mergulho

Uma das missões mais críticas e menos divulgadas.

Objetivos:

Detectar e caçar mergulhadores inimigos

Neutralizar IEDs submersos

Proteger ativos sensíveis

Ativos protegidos:

Navios atracados

Plataformas offshore

Terminais energéticos

Ferramentas:

Sonar de detecção humana

Redes físicas

Barreiras submersas

Patrulhas subaquáticas regulares

4. DEFESA DE INFRAESTRUTURA CRÍTICA

Alvos prioritários:

Cabos de comunicação internacional

Gasodutos e oleodutos

Plataformas de petróleo e gás

Usinas costeiras

Sistemas de monitoramento oceânico

📌 Hoje, a proteção desses ativos é prioridade geopolítica superior ao combate naval clássico.

5. EXEMPLOS REAIS (SEM FICÇÃO)

US Navy EOD / SEAL Delivery Vehicle – foco em neutralização, sabotagem e proteção portuária

COMSUBIN (Itália) – excelência em guerra costeira e proteção de infraestrutura

Marinejegerkommandoen (Noruega) – operações em águas frias e ambientes complexos

Frogmen asiáticos (Mar do Sul da China) – negação de área e presença persistente

Doutrina russa – forte ênfase na proteção e controle de ativos submarinos estratégicos

➡️ Nenhuma dessas forças prioriza “combate cinematográfico”.

6. EM RESUMO: REALIDADE OPERACIONAL

✔️ Mergulhadores de combate defendem fronteiras ao:

Negar acesso

Sabotar discretamente

Proteger infraestrutura crítica

Criar incerteza estratégica ao adversário

Eles não enfrentam:

Torpedos

Submarinos em combate direto

Mísseis

➡️ Seu poder reside em ser invisível, paciente e assimétrico.



Comentários

Destaques

LIVRO DE MERGULHO COMO ARMADILHA DOCUMENTAL

O LIVRO DE MERGULHO COMO ARMADILHA DOCUMENTAL Limitações operacionais, contradições normativas e impactos previdenciários na carreira do mergulhador profissional Introdução O Livro de Registro de Mergulho (LRM), modelo DPC-2320, fornecido e homologado pela Marinha do Brasil, é definido pelas Normas da Autoridade Marítima como documento oficial para registro da habilitação, dos exames médicos e das atividades subaquáticas do mergulhador profissional. À luz da NORMAM-13/DPC e da NORMAM-15/DPC, o LRM ocupa posição central no sistema regulatório do mergulho profissional brasileiro. Ele é exigido para o ingresso, permanência e regularidade do aquaviário integrante do 4º Grupo – Mergulhadores, nas categorias Mergulhador que Opera com Ar Comprimido (MGE) e Mergulhador que Opera com Mistura Gasosa Artificial (MGP). Entretanto, quando confrontado com a realidade operacional do mergulho profissional moderno, o LRM deixa de cu...

Mergulhadores em Excesso, Vagas em Falta: A Crise Silenciosa do Mergulho Profissional no Brasil

  Mergulhadores em Excesso , Vagas em Falta: A Crise Silenciosa do Mergulho Profissional no Brasil O mergulho profissional brasileiro vive uma contradição profunda e pouco discutida fora do próprio meio: forma-se mais mergulhadores do que o mercado é capaz de absorver, enquanto aqueles que conseguem ingressar enfrentam baixa remuneração, precarização e padrões de segurança incompatíveis com o risco extremo da atividade. Longe de ser uma profissão escassa ou elitizada, o mergulho profissional tornou-se, ao longo dos anos, uma categoria inflada, desvalorizada e empurrada para a informalidade — uma realidade que cobra seu preço em acidentes, adoecimento e abandono da carreira. 🎓 Formação Existe — Emprego, Não É verdade que o Brasil possui poucas escolas formalmente reconhecidas pela Marinha do Brasil para a formação de mergulhadores profissionais, como unidades do SENAI , a Divers University e a Mergulho Pró. No entanto, isso não significou controle de mercado, muito menos equilíb...

Mergulhando na Caixa de Mar

 Você sabe o que é caixa de mar  ? A caixa de mar fornece um reservatório de entrada do qual os sistemas de tubulação retiram água bruta.  A maioria das caixas de mar é protegida por  grades  removíveis  e podem conter placas defletoras para amortecer os efeitos da velocidade da embarcação ou do estado do mar.  O tamanho de entrada e espaço interno das caixas de mar pode varia de menos de 10 cm² a vários metros quadrados. As grades da caixa de mar estão localizadas debaixo de água no casco de um navio tipicamente adjacente à casa das máquinas. As caixas do mar são utilizadas para extrair água através delas para lastro e arrefecimento de motores, e para demais sistemas de uma embarcação, incluindo plataformas de petróleo. São raladas até um certo tamanho para restringir a entrada de materiais estranhos indesejados. Esta área crítica de entrada subaquática requer cuidados e manutenção constantes para assegurar um fluxo livre de água do mar. Os Serviços d...

Aprenda marinharia - Pinha de Retinida

Sua embarcação vai acostar junto a outra embarcação para realizar a faina do dia! Eis que é necessário lançar o cabo para amarração. Quantos já tiveram problemas nesse momento, precisando de diversos arremessos para obter sucesso. A verdade é que se tivessem aprendido este nó, a coisa seria muito mais fácil. O "Pinha de Retinida" foi concebido para formar um peso na extremidade de uma linha guia a fim de permitir lançar o chicote de um cabo a uma maior distância. O que é: *Faina: s.f. Qualquer trabalho a bordo de um navio *Acostar : 1) Diz-se quando uma embarcação se aproxima de uma costa; navegar junto à costa. 2) Encostar o barco no cais ou em outra embarcação. Leia também:  Aprenda Marinharia - Falcaça Simples Aprenda Marinharia - Nó Volta do Fiel Aprenda Marinharia - Nó Láis de Guia Aprenda Marinharia - Nó Boca de Lobo

Mergulhadores abandonados à própria sorte

Mergulhadores abandonados à própria sorte O vazio de responsabilidade no mergulho comercial após o adoecimento ou acidente Resumo executivo No mergulho comercial brasileiro, o rompimento do vínculo não ocorre apenas com o encerramento formal do contrato, mas, de forma recorrente, no momento em que o mergulhador adoece ou se acidenta. A partir do afastamento previdenciário, instala-se um vazio de responsabilidade caracterizado pela ausência de apoio médico especializado, inexistência de suporte psicológico, negação sistemática do nexo causal ou concausal e silêncio institucional por parte dos contratantes. Este cenário revela um modelo estrutural de transferência de risco, no qual os custos do adoecimento ocupacional são deslocados do sistema produtivo para o trabalhador e para a previdência social. 1. O afastamento previdenciário como ruptura operacional Na prática cotidiana do mergulho comercial, o afastamento pelo sistema previdenciário opera como uma linha de ...

Curso de mergulho profissional no Brasil

Para se tornar mergulhador profissional raso (50 mt) no Brasil, é preciso recorrer à uma das três escolas credenciadas pela Marinha.  Uma das opções é o Senai, que oferece o curso no Rio de Janeiro e em Macaé. A outra é a Divers University em Santos, e por fim, a mais jovem entre as escolas de mergulho profissional, A Mergulho Pro Atividades Subaquáticas.  Os valores estão na média de R$ 5085,04 (Preço Senai) para a formação básica, sendo aconselhável realizar outras especializações que podem elevar significativamente o investimento. Por exemplo, para trabalhar no mercado off-shore é pré-requisito de uma forma geral, a formação em:   Montagem e manutenção de estruturas submersas  (R$2029,46).   Outro exemplo de formação básica complementar:    Suporte Básico À Vida Para Mergulhadores. (Não é pré-requisito) É um ponto positivo pois capacita o mergulhador a prestar os primeiros socorros dentro dos padrões solicitados pela NORMAM 15 (DPC - Marinha...

ARTROSE EM MERGULHADORES PROFISSIONAIS - Bases científicas, mecanismos fisiopatológicos e implicações operacionais

ARTROSE EM MERGULHADORES PROFISSIONAIS Bases científicas, mecanismos fisiopatológicos e implicações operacionais Introdução A artrose, denominada na literatura médica como osteoartrite (OA), é uma doença crônica das articulações caracterizada pela degeneração progressiva da cartilagem articular, remodelação do osso subcondral, formação de osteófitos e inflamação sinovial de baixo grau. Durante décadas, foi descrita como consequência inevitável do envelhecimento. Essa interpretação foi amplamente superada. A literatura científica contemporânea demonstra que a osteoartrite é uma doença multifatorial, fortemente dependente de carga mecânica cumulativa, microtrauma repetitivo e falhas nos mecanismos de reparo tecidual (Loeser et al., 2012; Hunter & Bierma-Zeinstra, 2019). No mergulho profissional, esses fatores assumem contornos específicos. Além da sobrecarga biomecânica típica de atividades pesadas, o mergulhador está expo...

As Doenças do Mergulho Profissional

As Doenças do Mergulho Profissional Análise técnica, clínica e institucional do adoecimento hiperbárico ocupacional Introdução O mergulho profissional expõe o trabalhador a um conjunto singular de riscos físicos, fisiológicos e biomecânicos. Essas exposições produzem um espectro amplo de doenças que não podem ser compreendidas de forma fragmentada nem reduzidas a eventos agudos isolados. A leitura institucional restritiva — focada quase exclusivamente na Doença Descompressiva clássica — contribui para subdiagnóstico, laudos frágeis e negação sistemática do nexo ocupacional. Esta reportagem do Mundo do Mergulho organiza, de forma integrada, as principais doenças do mergulho profissional, tratando cada uma como um bloco técnico completo: fisiopatologia, manifestações clínicas, exames úteis e achados comumente descritos em laudos médicos e periciais. Doença Descompressiva (DCS / Doença Descompressiva – DD) A Doença Descompressiva resulta da for...

Aposentadoria Especial de Mergulhadores Profissionais no Brasil

Aposentadoria Especial de Mergulhadores Profissionais no Brasil Fundamentos técnicos, científicos, trabalhistas e previdenciários Introdução A aposentadoria especial é um instrumento jurídico criado para proteger trabalhadores expostos de forma permanente a agentes nocivos à saúde ou à integridade física. No caso do mergulho profissional, trata-se de uma das atividades laborais com maior densidade de riscos físicos, fisiológicos e operacionais reconhecidos tecnicamente, embora ainda exista significativa dificuldade prática de enquadramento previdenciário. Este artigo analisa a aposentadoria especial do mergulhador à luz do Direito Previdenciário, do Direito do Trabalho, das Normas Regulamentadoras do MTE (NR-15 e NR-7), da Normam-15 da Marinha do Brasil, das normativas internas do INSS e da literatura técnica e científica relacionada à exposição hiperbárica. 1. Fundamento Constitucional e Previdenciário A aposentadoria e...

Convenção Coletiva SINTASA–SIEMASA 2024/2026

Convenção Coletiva SINTASA–SIEMASA 2024/2026: formalização trabalhista, baixo piso salarial e a persistente desvalorização do mergulho profissional no Brasil A Convenção Coletiva de Trabalho firmada entre o Sindicato Nacional dos Trabalhadores em Atividades Subaquáticas e Afins (SINTASA) e o Sindicato das Empresas de Engenharia Subaquática, Operações de Veículos de Controle Remoto, Atividades Subaquáticas e Afins (SIEMASA), com vigência de 1º de setembro de 2024 a 31 de agosto de 2026, estabelece o conjunto de regras econômicas, trabalhistas e administrativas que rege o mergulho profissional no Brasil neste período. A leitura integral do documento revela um ponto central: a convenção organiza relações formais de trabalho, mas não resolve a incompatibilidade estrutural entre risco, complexidade técnica e remuneração da atividade subaquática. Reposição salarial: reajuste real limitado sobre uma base baixa A Cláusula Prime...