Ombros de mergulhadores: avanços necessários na compreensão dos riscos hiperbáricos e ergonômicos
1. Introdução ampliada: o ombro como elo frágil do sistema operacional subaquático
O ombro do mergulhador profissional ocupa uma posição singular entre as articulações humanas: combina alta mobilidade, baixa estabilidade intrínseca e elevada exigência funcional. No mergulho ocupacional, essa articulação é submetida simultaneamente a:
- alterações fisiológicas decorrentes da pressão ambiente;
- riscos associados à doença descompressiva (DCS) e suas formas subclínicas;
- sobrecargas biomecânicas severas, especialmente em trabalhos acima da cabeça, posturas forçadas e uso de ferramentas submersas.
Apesar disso, o ombro permanece sub-representado nos programas formais de vigilância médica, nos POPs operacionais e nos modelos de análise de risco utilizados por gestores offshore.
2. Avanços no entendimento da fisiopatologia articular sob pressão
2.1. Articulações como compartimentos vulneráveis à supersaturação
Estudos clássicos de medicina hiperbárica demonstram que tecidos periarticulares, incluindo sinóvia, cartilagem e osso subcondral, apresentam perfusão lenta, favorecendo retenção de nitrogênio durante a fase de fundo do mergulho.
Hills (1977) demonstrou que tecidos de baixa perfusão apresentam cinética de dessaturação significativamente mais lenta.
Edmonds, Lowry e Pennefather (2015) reforçaram que articulações são locais preferenciais para sintomas musculoesqueléticos da DCS tipo I.
O ombro, por sua complexidade anatômica e grande volume capsular, torna-se um reservatório fisiológico crítico.
2.2. Dor articular e microbolhas: além da DCS clássica
Avanços em doppler transcraniano e ecocardiografia contrastada permitiram identificar que:
- microbolhas circulantes podem estar presentes mesmo em mergulhos dentro dos limites de não descompressão (Spencer, 1976; Kisman et al., 2011);
- sintomas articulares podem ocorrer sem critérios diagnósticos clássicos de DCS, fenômeno descrito como subclinical decompression stress.
Isso levanta a hipótese de que episódios repetidos de estresse descompressivo subclínico possam contribuir para processos inflamatórios crônicos no ombro do mergulhador.
3. Doença descompressiva e lesões estruturais do ombro
3.1. DCS musculoesquelética: padrões específicos do ombro
A literatura médica descreve que:
- ombros e cotovelos são as articulações mais frequentemente afetadas na DCS tipo I (Vann et al., 2011);
- a dor é profunda, mal localizada e frequentemente agravada pelo movimento passivo, o que pode confundir o diagnóstico com lesões mecânicas.
Estudos clínicos de Marsolais et al. (1994) mostraram que dores articulares persistentes após DCS podem evoluir para limitação funcional prolongada, mesmo após tratamento hiperbárico adequado.
3.2. Osteonecrose disbárica do úmero: evidência subestimada
Embora mais frequentemente associada ao quadril, a osteonecrose disbárica também foi descrita na cabeça do úmero:
- Davidson et al. (1989) documentaram necrose asséptica do ombro em trabalhadores hiperbáricos expostos repetidamente;
- estudos radiológicos posteriores (Kier et al., 1990) confirmaram lesões ósseas silenciosas em mergulhadores assintomáticos.
Esses achados sustentam que lesões estruturais podem evoluir sem correlação direta com sintomas agudos, representando risco ocupacional de longo prazo.
4. Ergonomia subaquática: o fator historicamente negligenciado
4.1. Trabalhos sobre cabeça e caixas de mar
Operações em caixas de mar, sob o casco de navios ou plataformas, impõem ao mergulhador:
- abdução sustentada do ombro acima de 90°;
- elevação prolongada do braço contra resistência hidrodinâmica;
- necessidade de controle fino de ferramentas pesadas em ambiente instável.
A ergonomia terrestre já reconhece que trabalhos acima da cabeça aumentam exponencialmente o risco de:
- síndrome do impacto subacromial;
- tendinopatias do manguito rotador;
- rupturas parciais cumulativas.
Estudos de Punnett e Wegman (2004) e van der Molen et al. (2017) demonstraram associação direta entre trabalho acima do nível do ombro e aumento de afastamentos ocupacionais por lesões.
4.2. Amplificação do risco no ambiente submerso
No mergulho, esses riscos são amplificados por fatores adicionais:
- resistência da água aos movimentos;
- flutuabilidade variável e necessidade de estabilização ativa;
- limitação de mobilidade imposta pelo traje e equipamentos.
Estudos de ergonomia subaquática (Pilmanis et al., 1977; Abdelhamid et al., 2020) demonstram aumento significativo da ativação muscular do deltoide e supraespinhal durante tarefas submersas comparadas às mesmas tarefas em ambiente seco.
5. Avanços possíveis e melhorias estruturais
5.1. Evolução nos POPs operacionais
A literatura aponta a necessidade de:
- limitar tempo contínuo de trabalho acima da cabeça;
- introduzir rodízio de tarefas submersas;
- incorporar pausas operacionais planejadas, mesmo dentro do tempo de fundo permitido.
Essas medidas já são recomendadas em ambientes industriais críticos, mas raramente formalizadas em POPs de mergulho.
5.2. Vigilância médica específica para ombro
Avanços possíveis incluem:
- protocolos de imagem periódica (ultrassonografia ou RM) para mergulhadores de alta exposição;
- registro longitudinal de dor articular, mesmo sem diagnóstico formal de DCS;
- correlação entre histórico de perfis hiperbáricos e queixas musculoesqueléticas.
Estudos de Chalmers et al. (2016) sugerem que vigilância precoce reduz incapacidades permanentes em trabalhadores expostos a sobrecarga articular.
5.3. Ergonomia aplicada e novas tecnologias
Pesquisas recentes exploram:
- exoesqueletos passivos para redução de carga em trabalhos acima da cabeça (de Vries et al., 2021);
- redesign de ferramentas subaquáticas com menor torque de reação;
- apoio mecânico externo em caixas de mar e estruturas confinadas.
Embora ainda pouco aplicadas no mergulho, essas soluções representam fronteira tecnológica relevante.
6. Lacunas científicas e implicações para gestores
Apesar dos avanços, persistem lacunas críticas:
- escassez de estudos longitudinais específicos sobre ombro em mergulhadores profissionais;
- subnotificação de sintomas articulares não classificados como DCS;
- ausência de integração entre medicina hiperbárica e ergonomia ocupacional nos modelos de risco.
Para gestores e decisores, isso implica que o risco real ao ombro do mergulhador é sistemicamente subestimado, com potenciais consequências jurídicas, previdenciárias e operacionais.
7. Conclusão técnica
O ombro do mergulhador profissional não é apenas uma articulação sujeita a esforço mecânico, mas um ponto de convergência entre pressão, descompressão e ergonomia. A evidência científica acumulada indica que:
- fatores hiperbáricos e biomecânicos interagem de forma sinérgica;
- lesões podem se desenvolver de maneira silenciosa e cumulativa;
- melhorias operacionais, médicas e ergonômicas são tecnicamente viáveis, mas ainda pouco implementadas.
Ignorar esse conjunto de evidências representa não apenas falha técnica, mas falha de gestão de risco.
8. Referências científicas
Hills, B.A. (1977). Decompression sickness. John Wiley & Sons.
Edmonds, C., Lowry, C., Pennefather, J. (2015). Diving and Subaquatic Medicine. CRC Press.
Spencer, M.P. (1976). Decompression limits for compressed air determined by ultrasonically detected bubbles. Journal of Applied Physiology.
Vann, R.D. et al. (2011). Decompression sickness. Lancet.
Marsolais, P. et al. (1994). Persistent joint pain after decompression sickness. Undersea and Hyperbaric Medicine.
Davidson, J.K. et al. (1989). Dysbaric osteonecrosis in compressed air workers. Journal of Bone and Joint Surgery.
Kier, R. et al. (1990). Magnetic resonance imaging of dysbaric osteonecrosis. Radiology.
Punnett, L., Wegman, D.H. (2004). Work-related musculoskeletal disorders. Journal of Electromyography and Kinesiology.
van der Molen, H.F. et al. (2017). Occupational exposure to arm elevation and shoulder disorders. Scandinavian Journal of Work, Environment & Health.
Pilmanis, A.A. et al. (1977). Underwater work performance and ergonomics. Ergonomics.
Abdelhamid, M. et al. (2020). Muscle activation during underwater tasks. Applied Ergonomics.
de Vries, A.W. et al. (2021). Passive exoskeletons for overhead work. Applied Ergonomics.
Chalmers, P.N. et al. (2016). Early detection of occupational shoulder disease. Journal of Shoulder and Elbow Surgery.

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