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O ranking oculto das mortes no mergulho profissional brasileiro

 Sob Pressão e no Escuro

O ranking oculto das mortes no mergulho profissional brasileiro

Por J. Adelaide — Reportagem Especial




O Brasil não sabe quantos mergulhadores profissionais morreram trabalhando.

Não porque os acidentes não tenham ocorrido — mas porque eles nunca foram sistematizados.

Essenciais para a indústria naval, portuária e de óleo e gás, mergulhadores profissionais operam diariamente em condições extremas, muitas vezes abaixo de 30, 40 ou mais de 100 metros de profundidade. Ainda assim, não existe no país um banco público, unificado e transparente de acidentes fatais ou graves envolvendo a categoria.

Ao longo de meses, esta reportagem analisou processos judiciais, reportagens, comunicados sindicais, boletins da Marinha, dados do Ministério do Trabalho, documentos internacionais de segurança (IMCA) e relatos de profissionais da área para reconstruir um ranking investigativo — não apenas de mortes, mas de ambientes operacionais e modelos de contratação com maior reincidência de acidentes fatais e incapacitantes.

O resultado aponta para um problema estrutural, que vai além de empresas específicas.

Um risco extremo fora das estatísticas

Diferentemente de setores como aviação ou mineração, o mergulho profissional brasileiro opera em um limbo regulatório e estatístico. Acidentes podem ser registrados como:

“mal súbito”

“causa indeterminada”

“afogamento”

“evento clínico”

sem que o nexo direto com o trabalho seja reconhecido.

Além disso, a cadeia de responsabilidades é fragmentada: empresas de mergulho terceirizadas, subcontratadas, contratos temporários, médicos do trabalho ligados às empresas e ausência de auditorias independentes.

“O acidente acontece no fundo do mar. A responsabilidade, na superfície, se dissolve”, resume um mergulhador experiente ouvido pela reportagem, que pediu anonimato por medo de represálias profissionais.

Como foi construído o ranking

Não existe um ranking oficial por empresa. Por isso, esta reportagem adotou critérios investigativos:

reincidência de acidentes graves ou fatais

tipo de operação (mergulho raso industrial, profundo ou saturação)

grau de terceirização

falhas recorrentes em protocolos de segurança

indícios de subnotificação ou descaracterização do acidente de trabalho

O ranking abaixo reflete contextos operacionais, não apenas CNPJs — justamente porque empresas mudam, mas o modelo permanece.

1º lugar — Offshore terceirizado nas bacias de Campos e Santos

Onde ocorre o maior número absoluto de mortes — e o maior apagamento institucional

A maior parte das mortes documentadas de mergulhadores profissionais no Brasil está ligada, direta ou indiretamente, a operações offshore em contratos terceirizados, sobretudo nas bacias de Campos e Santos, responsáveis pelo coração da produção de petróleo do país.

São operações complexas: inspeção e manutenção de dutos, risers, estruturas submersas e sistemas de ancoragem. Envolvem mergulho profundo, uso de misturas gasosas e, em alguns casos, saturação.

Casos como o de mergulhador , morto em 2018 durante atividade em área ligada à Petrobras, expuseram falhas graves — incluindo relatos de rompimento de suprimento de gás e dificuldade de resgate.

O padrão identificado pela investigação é recorrente:

acidentes envolvendo terceirizados

empresas de mergulho que desaparecem ou mudam de razão social

contratantes que não aparecem formalmente como responsáveis

O resultado é a impossibilidade de construir um histórico público de reincidência, mesmo em contextos de alto risco.

2º lugar — Mergulho raso industrial em portos e obras costeiras

Mais acidentes e mortes do que no offshore — e quase nenhuma visibilidade

Ao contrário do senso comum, o mergulho raso industrial é o segmento com maior número de acidentes graves e fatais no país.

São operações realizadas entre 10 e 40 metros de profundidade, em portos, estaleiros, píeres, dragagens e fundações. Justamente por serem considerados “rasos”, esses mergulhos frequentemente operam com menos redundâncias de segurança.

Entre os problemas recorrentes identificados:

ausência de câmara hiperbárica no local

múltiplos mergulhos por jornada

subidas rápidas e descompressão inadequada

equipes reduzidas e pressão por produtividade

A morte do mergulhador, em 2024, na Bahia, após passar mal durante a descompressão, segue um padrão observado há décadas.

Poucos desses casos resultam em processos judiciais ou investigações aprofundadas. A informalidade e o medo de represálias silenciam profissionais e famílias.

3º lugar — Acidentes incapacitantes: quando o mergulhador sobrevive

Nem todo acidente termina em morte.

Alguns destroem definitivamente a vida profissional e física do mergulhador.

A reportagem identificou casos de:

paraplegia

lesões neurológicas irreversíveis

necrose óssea disbárica

Em pelo menos um caso documentado, a Justiça reconheceu que:

a empresa não dispunha de suporte hiperbárico adequado

o atendimento foi tardio

o mergulhador ficou permanentemente incapacitado

Esses episódios raramente entram em estatísticas públicas. A empresa segue operando. O profissional, não.

O problema não é uma empresa. É o sistema.

A investigação aponta que não existe um único “vilão” corporativo, mas sim um modelo sustentado por:

terceirização extrema

ausência de banco público de acidentes

médicos do trabalho ligados às empresas

fiscalização fragmentada

cultura de silêncio entre trabalhadores

No papel, o Brasil tem normas. Na prática, o fundo do mar continua sendo um território opaco para o Estado.

Conclusão

O Brasil depende do trabalho de mergulhadores profissionais para manter portos, plataformas, estaleiros e a produção de petróleo funcionando.

Mas não é capaz de dizer quantos deles morreram trabalhando.

Enquanto não houver:

transparência de dados

responsabilização solidária das contratantes

independência médica

fiscalização contínua

novos acidentes continuarão sendo tratados como exceções — quando, na verdade, fazem parte de um padrão estrutural.

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