Pular para o conteúdo principal

Inovação Global versus Precarização Brasileira



Mergulho Comercial: Inovação Global versus Precarização Brasileira

O mergulho comercial é uma atividade essencial — e invisível — para a economia marítima. De navios que transportam grãos ao petróleo que move a matriz energética, mergulhadores profissionais garantem inspeções críticas de cascos, manutenção de dutos, plataformas offshore e operações que desafiam os limites humanos.

Mas enquanto no exterior o setor evolui como um laboratório de ciência aplicada, no Brasil ele se mantém num modus operandi precarizado, com graves implicações humanas e tecnológicas.

Brasil: risco constante e pouca proteção

Acidentes e adoecimento

Os mergulhadores brasileiros enfrentam riscos somados pela natureza e pela estrutura do setor. A doença descompressiva — condição em que bolhas de gás se formam no corpo ao retornar à superfície rapidamente — é um perigo real e cumulativo. Em ambientes profissionais com múltiplos mergulhos profundos, sem protocolos claros e suporte tecnológico, os efeitos se acumulam com o tempo e incluem dormência, dor intensa, paralisia e, em casos graves, sequela permanente ou morte.�

mpei.ufba.br

Nos últimos anos, relatos de mergulhadores profissionais que sofreram doença descompressiva vieram à tona. Em 2024, um mergulhador na Bahia morreu após apresentar sintomas graves durante a descompressão — uma prática que demanda supervisão médica e câmaras hiperbáricas adequadas.�

O Globo

Além disso, organizações ligadas ao mar apontam que, no Brasil, muitos acidentes graves ocorrem fora do ambiente regulamentado, como em mergulho ilegal com compressores usados em pesca, situação que aumenta drasticamente o risco de fatalidades e lesões graves.�

Oceana Brasil

Segundo estatísticas internacionais comparativas, a incidência de doença descompressiva em mergulho comercial — mesmo em operações altamente padronizadas no exterior — não desapareceu completamente, mas foi drasticamente reduzida por meio de protocolos rígidos e tecnologia de monitoramento.�

Brasil Mergulho

Entrevistas: vozes do mergulho

“A gente sabe que não pode errar” — João Silva, mergulhador comercial com 12 anos de experiência.*

“Quando estamos a 40 metros, cada movimento é calculado. Não é como esportivo. O tempo de descompressão, a comunicação com a superfície… tudo tem que funcionar. Mas muitas vezes falta equipamento e, mais ainda, respaldo jurídico e de empresa para a gente se proteger. Vejo colegas saírem do mar com dores que só sentem depois, e ninguém quer falar abertamente sobre isso.”

— relato que ecoa a vulnerabilidade do trabalhador submerso no Brasil.

“Tecnologia não compensa falta de política pública” — Dra. Laura Mendes, pesquisadora em saúde ocupacional.*

“Mesmo quando há conhecimento sobre riscos, a aplicação prática fica aquém do necessário. O Brasil tem profissionais capazes, mas sem regulamentação clara — como a proposta recente na Câmara dos Deputados, que agora avança para o Senado com direitos trabalhistas e proteção específica — perseveramos num modelo que não protege adequadamente quem opera sob pressão extrema.”

— refere-se ao projeto que prevê indenização por desgaste orgânico, seguro mínimo e limites de mergulho profundo, aprovada pela Câmara em novembro de 2025.�

Portal da Câmara dos Deputados

Internacional: ciência aplicada e parcerias acadêmicas

No exterior, grandes empresas de mergulho comercial transcenderam a prestação de serviços e tornaram-se centros de pesquisa e desenvolvimento tecnológico. Modelos como o da britânica Subsea 7 exemplificam essa transformação.

Box Explicativo — Como funcionam as parcerias Subsea 7–NTNU

Subsea 7, com bases no Reino Unido e Noruega, atua em projetos avançados de engenharia submarina. Um de seus pilares competitivos é a parceria com a Norwegian University of Science and Technology (NTNU):

✔️ Pesquisa aplicada: desenvolvimento conjunto de robôs autônomos capazes de inspecionar dutos submarinos com mínima intervenção humana.

✔️ Gêmeos digitais: sistemas que simulam, em tempo real, as condições das infraestruturas submarinas para prever falhas.

✔️ Inteligência artificial: algoritmos que analisam dados de sensores para guiar ROVs (veículos operados remotamente).

Esse arranjo cria um ciclo virtuoso: a empresa financia linhas de pesquisa, os estudantes acessam desafios reais, e a NTNU incorpora conhecimento de ponta ao currículo acadêmico.

Por que modelos assim não existem no Brasil?

🔹 Falta de investimento estruturado: sem políticas industriais que estimulem P&D no setor, as empresas brasileiras permanecem focadas em execução operacional, não em inovação.

🔹 Conexão academia–indústria limitada: universidades e centros de pesquisa têm pouca integração formal com empresas de mergulho comercial.

🔹 Ambiente regulatório incipiente: a ausência de um marco claro que vincule empresas a programas de desenvolvimento tecnológico desestimula parcerias de longo prazo.

Brasil x Mundo: o duelo tecnológico e humano




Conclusão

O mergulho comercial brasileiro está num ponto de inflexão. Com riscos que vão além dos limites humanos — passando por precarização laboral, exposição à doença descompressiva e falta de proteção normativa — a atividade carece urgentemente de um projeto de longo prazo. Enquanto isso, no mundo, líderes tecnológicos consolidam um modelo em que a engenharia submarina é ciência, inovação e vantagem competitiva global.

O amanhã do mergulho comercial no Brasil dependerá de decisões tomadas hoje — sobre segurança, inovação e reconhecimento de que o mar não é apenas um espaço de serviço, mas um território de conhecimento.

Comentários

Destaques

Mergulhadores em Excesso, Vagas em Falta: A Crise Silenciosa do Mergulho Profissional no Brasil

  Mergulhadores em Excesso , Vagas em Falta: A Crise Silenciosa do Mergulho Profissional no Brasil O mergulho profissional brasileiro vive uma contradição profunda e pouco discutida fora do próprio meio: forma-se mais mergulhadores do que o mercado é capaz de absorver, enquanto aqueles que conseguem ingressar enfrentam baixa remuneração, precarização e padrões de segurança incompatíveis com o risco extremo da atividade. Longe de ser uma profissão escassa ou elitizada, o mergulho profissional tornou-se, ao longo dos anos, uma categoria inflada, desvalorizada e empurrada para a informalidade — uma realidade que cobra seu preço em acidentes, adoecimento e abandono da carreira. 🎓 Formação Existe — Emprego, Não É verdade que o Brasil possui poucas escolas formalmente reconhecidas pela Marinha do Brasil para a formação de mergulhadores profissionais, como unidades do SENAI , a Divers University e a Mergulho Pró. No entanto, isso não significou controle de mercado, muito menos equilíb...

LIVRO DE MERGULHO COMO ARMADILHA DOCUMENTAL

O LIVRO DE MERGULHO COMO ARMADILHA DOCUMENTAL Limitações operacionais, contradições normativas e impactos previdenciários na carreira do mergulhador profissional Introdução O Livro de Registro de Mergulho (LRM), modelo DPC-2320, fornecido e homologado pela Marinha do Brasil, é definido pelas Normas da Autoridade Marítima como documento oficial para registro da habilitação, dos exames médicos e das atividades subaquáticas do mergulhador profissional. À luz da NORMAM-13/DPC e da NORMAM-15/DPC, o LRM ocupa posição central no sistema regulatório do mergulho profissional brasileiro. Ele é exigido para o ingresso, permanência e regularidade do aquaviário integrante do 4º Grupo – Mergulhadores, nas categorias Mergulhador que Opera com Ar Comprimido (MGE) e Mergulhador que Opera com Mistura Gasosa Artificial (MGP). Entretanto, quando confrontado com a realidade operacional do mergulho profissional moderno, o LRM deixa de cu...

Mergulhando na Caixa de Mar

 Você sabe o que é caixa de mar  ? A caixa de mar fornece um reservatório de entrada do qual os sistemas de tubulação retiram água bruta.  A maioria das caixas de mar é protegida por  grades  removíveis  e podem conter placas defletoras para amortecer os efeitos da velocidade da embarcação ou do estado do mar.  O tamanho de entrada e espaço interno das caixas de mar pode varia de menos de 10 cm² a vários metros quadrados. As grades da caixa de mar estão localizadas debaixo de água no casco de um navio tipicamente adjacente à casa das máquinas. As caixas do mar são utilizadas para extrair água através delas para lastro e arrefecimento de motores, e para demais sistemas de uma embarcação, incluindo plataformas de petróleo. São raladas até um certo tamanho para restringir a entrada de materiais estranhos indesejados. Esta área crítica de entrada subaquática requer cuidados e manutenção constantes para assegurar um fluxo livre de água do mar. Os Serviços d...

Aprenda marinharia - Pinha de Retinida

Sua embarcação vai acostar junto a outra embarcação para realizar a faina do dia! Eis que é necessário lançar o cabo para amarração. Quantos já tiveram problemas nesse momento, precisando de diversos arremessos para obter sucesso. A verdade é que se tivessem aprendido este nó, a coisa seria muito mais fácil. O "Pinha de Retinida" foi concebido para formar um peso na extremidade de uma linha guia a fim de permitir lançar o chicote de um cabo a uma maior distância. O que é: *Faina: s.f. Qualquer trabalho a bordo de um navio *Acostar : 1) Diz-se quando uma embarcação se aproxima de uma costa; navegar junto à costa. 2) Encostar o barco no cais ou em outra embarcação. Leia também:  Aprenda Marinharia - Falcaça Simples Aprenda Marinharia - Nó Volta do Fiel Aprenda Marinharia - Nó Láis de Guia Aprenda Marinharia - Nó Boca de Lobo

O custo psicológico do mergulho profissional

  O custo psicológico do mergulho profissional Ansiedade, silêncio e estigma no trabalho subaquático No mergulho profissional, os riscos físicos são amplamente conhecidos. Pressão, profundidade, equipamentos complexos e ambientes hostis fazem parte da rotina de quem trabalha debaixo d’água. O que raramente entra nos relatórios técnicos, porém, é o impacto psicológico dessa atividade — um custo silencioso que acompanha mergulhadores antes, durante e depois de cada operação. Ansiedade, tensão constante e estresse acumulado costumam ser tratados como parte natural do trabalho. Quando ignorados, esses fatores afetam a tomada de decisão, comprometem a segurança operacional e geram consequências profundas para os trabalhadores e suas famílias. A carga invisível da responsabilidade O mergulhador profissional não responde apenas por si. Ele carrega a confiança da equipe, a pressão do cronograma, a expectativa da supervisão e, muitas vezes, operações de alto valor financeiro. Cada tarefa ex...

Patos de borracha navegando há mais de 20 anos no mar

Ouvimos falar de muitos contêineres que caem ao mar, por ano são registradas a queda de cerca de 10 mil cargas, e em sua maioria as cargas afundam e nunca mais são vistas. Em outros casos, como o de um carregamentos de tênis da marca Nike, chegaram a boiar durante alguns anos, mas tão logo os solados e tecidos se desintegraram, os mesmos não foram mais vistos. Casos como esse podem e já foram utilizados por pesquisadores de diversos institutos oceanográficos para entender mais sobre as correntes marítimas. De todos os casos já registrados, sem dúvida o mais emblemático é o de quase 30 mil brinquedos de plástico que caíram no mar em 1992 durante transporte de Hong Kong para os Estados Unidos. Desde então os patos, castores, sapos e tartarugas de plástico seguem se aventurando. Os brinquedos já viajaram mais léguas que Cristóvão Colombo, atravessaram 3 oceanos e acredita-se ainda que passaram algum tempo congelados em algum lugar do Ártico.  O caso dos brinquedos lançados ao ...

Mergulhadores abandonados à própria sorte

Mergulhadores abandonados à própria sorte O vazio de responsabilidade no mergulho comercial após o adoecimento ou acidente Resumo executivo No mergulho comercial brasileiro, o rompimento do vínculo não ocorre apenas com o encerramento formal do contrato, mas, de forma recorrente, no momento em que o mergulhador adoece ou se acidenta. A partir do afastamento previdenciário, instala-se um vazio de responsabilidade caracterizado pela ausência de apoio médico especializado, inexistência de suporte psicológico, negação sistemática do nexo causal ou concausal e silêncio institucional por parte dos contratantes. Este cenário revela um modelo estrutural de transferência de risco, no qual os custos do adoecimento ocupacional são deslocados do sistema produtivo para o trabalhador e para a previdência social. 1. O afastamento previdenciário como ruptura operacional Na prática cotidiana do mergulho comercial, o afastamento pelo sistema previdenciário opera como uma linha de ...

Curso de mergulho profissional no Brasil

Para se tornar mergulhador profissional raso (50 mt) no Brasil, é preciso recorrer à uma das três escolas credenciadas pela Marinha.  Uma das opções é o Senai, que oferece o curso no Rio de Janeiro e em Macaé. A outra é a Divers University em Santos, e por fim, a mais jovem entre as escolas de mergulho profissional, A Mergulho Pro Atividades Subaquáticas.  Os valores estão na média de R$ 5085,04 (Preço Senai) para a formação básica, sendo aconselhável realizar outras especializações que podem elevar significativamente o investimento. Por exemplo, para trabalhar no mercado off-shore é pré-requisito de uma forma geral, a formação em:   Montagem e manutenção de estruturas submersas  (R$2029,46).   Outro exemplo de formação básica complementar:    Suporte Básico À Vida Para Mergulhadores. (Não é pré-requisito) É um ponto positivo pois capacita o mergulhador a prestar os primeiros socorros dentro dos padrões solicitados pela NORMAM 15 (DPC - Marinha...

A Ponte Rio-Niterói e os Limites do Corpo Humano

A Ponte Rio-Niterói e os Limites do Corpo Humano Mergulho profundo a ar comprimido, narcose, risco invisível e a origem da virada tecnológica no mergulho comercial Introdução A construção da Ponte Rio-Niterói, inaugurada em 1974, não representou apenas um marco da engenharia civil brasileira. Sob a lâmina turva da Baía de Guanabara, a obra expôs de forma extrema os limites fisiológicos do corpo humano submetido à pressão, em um período no qual o mergulho comercial ainda operava com ferramentas conceituais e tecnológicas hoje consideradas inaceitáveis. Durante a execução das fundações profundas, mergulhadores trabalharam em pressões equivalentes a até 80 metros de profundidade, respirando ar comprimido, utilizando máscaras fullface ou capacetes de suprimento pela superfície. Relatos técnicos e testemunhais convergem em um ponto: a narcose por nitrogênio era frequente, apagamentos ocorriam, mas, paradoxalme...

ARTROSE EM MERGULHADORES PROFISSIONAIS - Bases científicas, mecanismos fisiopatológicos e implicações operacionais

ARTROSE EM MERGULHADORES PROFISSIONAIS Bases científicas, mecanismos fisiopatológicos e implicações operacionais Introdução A artrose, denominada na literatura médica como osteoartrite (OA), é uma doença crônica das articulações caracterizada pela degeneração progressiva da cartilagem articular, remodelação do osso subcondral, formação de osteófitos e inflamação sinovial de baixo grau. Durante décadas, foi descrita como consequência inevitável do envelhecimento. Essa interpretação foi amplamente superada. A literatura científica contemporânea demonstra que a osteoartrite é uma doença multifatorial, fortemente dependente de carga mecânica cumulativa, microtrauma repetitivo e falhas nos mecanismos de reparo tecidual (Loeser et al., 2012; Hunter & Bierma-Zeinstra, 2019). No mergulho profissional, esses fatores assumem contornos específicos. Além da sobrecarga biomecânica típica de atividades pesadas, o mergulhador está expo...