Lei de Dalton, Misturas Gasosas e os Riscos Invisíveis no Mergulho
Quando você pensou em começar a mergulhar, talvez não imaginasse que precisaria compreender química, física, fisiologia e até desenho técnico. No entanto, no mergulho profissional e técnico, esse conhecimento vai muito além da teoria: pode ser determinante entre voltar à superfície ou não.
No ambiente hiperbárico, as leis físicas não perdoam erros operacionais. Entender como os gases se comportam sob pressão é uma exigência básica para qualquer mergulhador que deseje atuar com segurança.
A Lei de Dalton e a Pressão Parcial dos Gases
Segundo a Lei de Dalton, a pressão total de uma mistura gasosa é igual à soma das pressões parciais de cada gás que a compõe. Isso significa que, à medida que aumentamos a pressão em uma câmara hiperbárica ou em profundidade, aumentam também as pressões parciais de oxigênio, nitrogênio e demais gases presentes.
Esse princípio é fundamental para compreender por que misturas gasosas mal planejadas representam riscos reais à saúde do mergulhador.
Pressão Parcial de Oxigênio (PPO₂) e a Lei de Henry
Com o aumento da PPO₂, cresce a solubilização do oxigênio no plasma, conforme descrito pela Lei de Henry. Em determinados limites, isso é fisiologicamente aceitável. No entanto, quando esses limites são ultrapassados, os efeitos colaterais podem ser graves.
Em mergulhos com misturas gasosas, o oxigênio deixa de ser apenas essencial à vida e passa a representar um risco ocupacional.
Toxicidade dos Gases no Mergulho
A toxicidade de um gás está relacionada ao grau em que ele afeta tecidos ou processos do corpo humano.
No caso do oxigênio, a intoxicação depende de dois fatores críticos:
Pressão parcial
Tempo de exposição
Por isso, os limites de segurança são definidos por tabelas específicas, semelhantes às tabelas de descompressão. Quanto maior a pressão parcial, menor deve ser o tempo de exposição.
Mergulhadores técnicos utilizam, além das tabelas de descompressão, tabelas de limites de exposição ao oxigênio, prática essencial para redução de riscos operacionais.
Principais Efeitos da Intoxicação por Oxigênio
🔹 Efeito Lorraine Smith – Toxicidade Pulmonar
Esse efeito está relacionado à ação tóxica do oxigênio sobre o tecido pulmonar. Exposições prolongadas a pressões parciais intermediárias podem remover a substância surfactante dos alvéolos, comprometendo a troca gasosa.
Principais sintomas:
Dor no peito
Falta de ar
Tosse persistente
Redução da capacidade respiratória
Escarros sanguinolentos
Esse tipo de intoxicação é mais comum em mergulho de saturação, tratamentos hiperbáricos prolongados e ambientes hospitalares.
🔹 Efeito Paul Bert – Sistema Nervoso Central
Descrito em 1878, o efeito Paul Bert ocorre quando altas pressões parciais de oxigênio afetam o metabolismo das células nervosas, podendo causar alterações neurológicas súbitas.
Os sintomas clássicos são lembrados pelo acrônimo CONVANTIT:
Alterações visuais
Náuseas
Zumbidos
Tremores
Irritabilidade
Tontura e euforia
As convulsões, embora raras, são especialmente perigosas no mergulho por risco direto de afogamento.
Fatores que Reduzem a Tolerância ao Oxigênio
Estudos conduzidos para a Marinha Real Inglesa e posteriormente pela Marinha Americana demonstraram que a tolerância ao oxigênio varia amplamente entre indivíduos e condições ambientais.
Fatores críticos incluem:
Esforço físico
Mergulho em águas frias ou muito quentes
Ambientes molhados (menor tolerância que câmaras secas)
Por esse motivo, não existe um “número mágico” totalmente seguro de PPO₂.
Limites Operacionais e Recomendações
As tabelas mais utilizadas atualmente, como as da NOAA, trabalham com uma PPO₂ máxima de 1,6 ata, considerada limite absoluto. De forma conservadora:
1,4 ata → zona de atenção
1,6 ata → limite máximo, a ser evitado sempre que possível
Frio, esforço físico e estresse aumentam significativamente o risco de intoxicação.
Tratamento e Prevenção
Tratamento:
A redução imediata da pressão parcial do oxigênio geralmente elimina os sintomas. Isso pode ser feito com:
Subida controlada
Troca da mistura respiratória
Persistindo os sintomas, a avaliação médica especializada é indispensável.
Profilaxia:
Testes de tolerância ao oxigênio
Planejamento rigoroso das misturas gasosas
Respeito absoluto aos limites operacionais
Misturas Gasosas e Aplicações Práticas
No cotidiano, raramente lidamos com gases puros. O próprio ar é uma mistura gasosa homogênea, composta majoritariamente por nitrogênio, oxigênio e pequenas quantidades de outros gases.
No mergulho, o estudo das pressões e volumes parciais é essencial, pois essas grandezas determinam o comportamento fisiológico dos gases sob pressão.
Lei de Dalton e Lei de Amagat
A Lei de Dalton estabelece que:
Ptotal = P₁ + P₂ + P₃ …
Já a Lei de Amagat afirma que o volume total de uma mistura gasosa é a soma dos volumes parciais de seus componentes.
Esses princípios formam a base de todo o planejamento seguro de mergulho profissional e técnico.
Conclusão
No mergulho, o maior risco não é o que se vê, mas o que não se percebe. Misturas gasosas mal compreendidas, limites ignorados e planejamento inadequado podem transformar uma operação rotineira em um evento crítico.
Conhecimento técnico não é um diferencial — é um requisito de sobrevivência.
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Vídeo Lei de Dalton - Mistura gasosa
Vídeo: Professor Paulo Valim

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