Pular para o conteúdo principal

Estruturas submersas e os tipos de revestimento

 



Quando falamos em instalações subaquáticas, precisamos pensar nos tipos de revestimento e proteção que  visam preservar essas estruturas. Levando-se em consideração que a maioria das estruturas são construídas com diferentes ligas metálicas, temos em consequência como maior vilão a corrosão, As ligas metálicas tendem a sofrer processos corrosivos, que podem ser químicos e eletroquímicos, o que por fim corresponde a retornar a sua forma original de composto. Água, luz, ar, calor, fadigas, eletricidade e até mesmo micro-organismos são causadores do processo corrosivo.





E como preservar as estruturas submersas ?

Existem algumas formas de evitar e minimizar os danos causados pelos processos corrosivos. Entre elas estão a proteção por corrente galvânica, a proteção por corrente impressa, e os diferentes tipos de revestimento. Os revestimentos por si só são insuficientes para gerar uma proteção adequada e satisfatória, mas ainda assim são de suma importância e foram os primeiros a serem utilizados como forma de proteção, seja para revestimento anticorrosivo , proteção térmica ou para flutuação negativa.

Nesta publicação estaremos focados em tratar dos principais revestimentos (algumas noções pertinentes), que tem seu primeiro registro de uso no Brasil na década de 30. Em publicações futuras trataremos das proteção catódica Galvânica que tem registro de uso à partir da década de 50, e da proteção por corrente impressa que passou a ser utilizada logo em seguida.

 Como mergulhadores, seja para ensaio visual ou manutenção, precisamos estar preparados em identificar os diferentes tipos de revestimento, a depender disso a exatidão dos relatórios de inspeção e as corretas práticas de manutenção e preservação das estruturas.


Principais revestimentos


Esse está entre os primeiros revestimentos utilizados. Trata-se de revestimento composto de alcatrão de hulha (A hulha ou carvão betuminoso, ou carvão negro, é um carvão relativamente macio que contém uma substância semelhante ao alcatrão chamada betume ou asfalto), O coaltar junto com o esmalte asfáltico foram os dois revestimentos utilizados na proteção de dutos nos anos 30. Inicialmente o processo era executado em campo para impermeabilização de dutos que seriam enterrados, foi tão difundido que na década seguinte os dutos passam a sair de fábrica com este revestimento. Seja na fábrica ou em campo, o processo de aplicação por fusão era bastante tóxico e insalubre.

Algumas literaturas indicam a seguinte sequencia de aplicação em camadas:


 camada - Coaltar

camada - Lã de vidro

camada - Coaltar

camada - Papel linter de algodão








Pode parecer estranho mas o concreto é sim utilizado como revestimento em instalações submersas. Também tem outras funções como fornecer lastro a determinadas estruturas e componentes. Em geral tem a mesma composição que estamos acostumados em condições emersas, sendo cimento, areia e brita, mas a brita escolhida é bem mais fina. Quanto a espessura utilizada desse revestimento, fica determinada em função do diâmetro do duto/estrutura, sendo utilizado em determinados casos minério de ferro na composição em substituição a brita.


O Enamel ou Esmalte asfáltico é um revestimento aplicado à planta com base em betume modificado que tem sido usado com sucesso por muitos anos para proteção contra corrosão de tubos de aço.
  • Excelente adesão ao aço e desempenho de longo prazo evidenciado por muitos projetos ainda em operação hoje.

  • Recomendado para dutos offshore que requerem revestimento de peso de concreto com instalação de baixo cisalhamento quando a temperatura contínua do fluido sendo transportado não excede 70 ° C (158 ° F).

  • Disponível com vários graus de esmaltes de asfalto, envoltórios e espessuras para atender às especificações do seu projeto.

  • Amplo histórico de tubos de asfalto esmaltado revestidos e instalados em todo o mundo.



Formada basicamente por Resina epóxi, poliamida e cargas minerais, esse é o revestimento mais versátil. Nos trabalhos de campo que envolvem atividades subaquáticas é sem sombra de dúvidas a mais utilizada. Em geral podendo ser empregada em sistemas de revestimentos, isolamento e proteção de tubulações, vedar trincar e furos passantes, reparar danos em camada dielétrica de anodos de corrente impressa, possuindo boa dureza e aderência nos mais diferentes materiais ( madeira, ferro e afins), desde a ZVM (Zona de Variação de Maré) até áreas totalmente submersas.

A aplicação de massa epóxi além de seguir as normas do fabricantes quanto a mistura dos componentes A/B, segue também normas da indústria em geral, que foram se aperfeiçoando à medida que avaliações de trabalhos anteriores e novos estudos eram elaborados. A exemplo dessas normas, podemos citar algumas normas da Petrobras que tratam do tema, mas são tantas que deixamos aqui apenas algumas referências que consideramos interessantes.

Petrobras/Contec N-2238 - Reparo de Revestimento Anticorrosivo Externo de Tubos 
Petrobras/Contec N-1374 - Revestimentos Anticorrosivos para Unidades Marítimas de Exploração e de Produção,
Petrobras/Contec N-2037 Pintura de Equipamentos Submersos em Água do Mar 

Preparo da massa - Os dois componentes devem ser misturados em partes iguais por peso fora da água. Com as mãos molhadas o aplicador deve pegar ambos os componentes misturando com cuidado para evitar a incorporação de ar e consequente formação de bolhas. Periodicamente o aplicador deve molhar as mãos para evitar que a massa cole nos dedos. A mistura dos dois componentes deve ser muito bem feita durante aproximadamente 3 minutos, até que se obtenha uma coloração homogênea e uniforme. Misturar pequenas quantidades de cada vez. A mistura dos dois componentes também pode ser feita com espátula 

Método de aplicação - Imediatamente após o preparo da superfície, aplicar massa epóxi poliamida de alta espessura (dois componentes) em camada contínua e uniforme, com espessura compreendida entre 1 mm e 4 mm em zonas de transição e para zonas submersas o indicado fica entre 2mm e 4mm. Em geral a técnica consiste em pressionar a massa contra a estrutura que se pretende revestir, com especial atenção aos pontos de emenda eliminando descontinuidades na aplicação.








Monel é a denominação de um conjunto de ligas metálicas de alta resistência mecânica e alta resistência à corrosão atmosférica, aos ácidos e álcalis e à água salgada. Têm ponto de fusão bastante elevado, por volta de 2.400°C. Níquel e cobre estão em sua composição, podendo ser em diferentes proporções. Com grande resistência a corrosão é bastante empregado como revestimentos em risers rígidos,  

"O uso de revestimento metálico protetor consiste na interposição de uma película metálica entre o meio corrosivo e o metal que se quer proteger. Os mecanismos de proteção das películas metálicas podem ser por formação de produtos insolúveis, por barreira, por proteção catódica, dentre outros. Em relação as películas metálicas protetoras quando constituídas de um metal mais catódico, é necessário que sejam isentas de falhas para que se evite a corrosão na superfície do metal de base.

Esta película pode dar ao material um comportamento mais nobre, como é o caso das películas metálicas mais catódicas que o metal de base, ou protege-lo por ação galvânica, ou ainda, se constituem numa barreira entre o metal e o meio e desta forma aumentam a resistência de contato das áreas anódicas e catódicas das pilhas de corrosão."

  • Tinta
A tinta é um revestimento que de formas diferentes está presente em 100 % das instalações. São tintas especificas e apropriadas aos ambientes e condições. Por exemplo, em plataformas fixas geralmente se estendem da parte emersa até os 6 metros de profundidade, já nas semissubmersíveis aparecem em toda a estrutura. A tinta além de proteger a estrutura contra corrosão, também tem ação anti-incrustante.




E o futuro ?

No que tange a instalações subaquáticas, os revestimentos acima são os mais encontrados. Com o tempo, com os avanços tecnológicos e pela vida útil de antigas estruturas estar chegando ao fim, a tendência é que em substituição passem a ser mais utilizados revestimentos menos insalubres em seus processos de produção e aplicação, e também materiais que não sofram com os processos de corrosão e  outras intempéries  . A exemplo, revestimentos anticorrosivos a base de epóxi em pó (FBE), outros a base de polietileno, as fitas anticorrosivas e filamentosas, mantas termocontráteis, entre outros. No futuro se vislumbra uma série de estruturas e dutos feitos todos em plástico de alta resistência.


FBE (Fusion Bonded Epoxy)

Comentários

Destaques

Delta P - Conheça os perigos da pressão diferencial no mergulho

Pressão Diferencial: o inimigo invisível que já custou vidas no mergulho profissional No universo do mergulho profissional, poucos riscos são tão silenciosos — e ao mesmo tempo tão letais — quanto a pressão diferencial, conhecida internacionalmente como Delta P (ΔP). Trata-se de um fenômeno quase invisível, difícil de perceber a olho nu e que, em questão de segundos, pode transformar uma operação rotineira em um acidente grave ou fatal. O que é a pressão diferencial (Delta P) A pressão diferencial ocorre quando dois corpos de água com níveis ou pressões diferentes se conectam, criando um fluxo intenso e direcionado. Esse cenário é comum em ambientes industriais e confinados, como: Caixas de mar Tanques e reservatórios Condutos e tubulações Estruturas portuárias Plataformas offshore Barragens e eclusas Quando essa comunicação acontece, a água tende a fluir violentamente do ponto de maior pressão para o de menor pressão, gerando um campo de sucção extremamente poderoso. Um risco quase i...

Mergulhadores em Excesso, Vagas em Falta: A Crise Silenciosa do Mergulho Profissional no Brasil

  Mergulhadores em Excesso , Vagas em Falta: A Crise Silenciosa do Mergulho Profissional no Brasil O mergulho profissional brasileiro vive uma contradição profunda e pouco discutida fora do próprio meio: forma-se mais mergulhadores do que o mercado é capaz de absorver, enquanto aqueles que conseguem ingressar enfrentam baixa remuneração, precarização e padrões de segurança incompatíveis com o risco extremo da atividade. Longe de ser uma profissão escassa ou elitizada, o mergulho profissional tornou-se, ao longo dos anos, uma categoria inflada, desvalorizada e empurrada para a informalidade — uma realidade que cobra seu preço em acidentes, adoecimento e abandono da carreira. 🎓 Formação Existe — Emprego, Não É verdade que o Brasil possui poucas escolas formalmente reconhecidas pela Marinha do Brasil para a formação de mergulhadores profissionais, como unidades do SENAI , a Divers University e a Mergulho Pró. No entanto, isso não significou controle de mercado, muito menos equilíb...

Mergulhando na Caixa de Mar

 Você sabe o que é caixa de mar  ? A caixa de mar fornece um reservatório de entrada do qual os sistemas de tubulação retiram água bruta.  A maioria das caixas de mar é protegida por  grades  removíveis  e podem conter placas defletoras para amortecer os efeitos da velocidade da embarcação ou do estado do mar.  O tamanho de entrada e espaço interno das caixas de mar pode varia de menos de 10 cm² a vários metros quadrados. As grades da caixa de mar estão localizadas debaixo de água no casco de um navio tipicamente adjacente à casa das máquinas. As caixas do mar são utilizadas para extrair água através delas para lastro e arrefecimento de motores, e para demais sistemas de uma embarcação, incluindo plataformas de petróleo. São raladas até um certo tamanho para restringir a entrada de materiais estranhos indesejados. Esta área crítica de entrada subaquática requer cuidados e manutenção constantes para assegurar um fluxo livre de água do mar. Os Serviços d...

Da planilha ao tribunal: quando decisões administrativas encontram o corpo do trabalhador

 Da planilha ao tribunal: quando decisões administrativas encontram o corpo do trabalhador Nos autos de um processo envolvendo acidente em atividade subaquática , duas narrativas se enfrentam. De um lado, a empresa, que apresenta procedimentos, contratos e relatórios. Do outro, o profissional acidentado , cujo corpo passa a ser a prova material da falha do sistema . O tribunal não julga apenas um evento isolado. Julga decisões administrativas confrontadas com a realidade operacional. O risco conhecido e a expectativa legítima do trabalhador Ao ingressar em uma atividade reconhecidamente perigosa, o profissional não renuncia aos seus direitos. A jurisprudência é clara ao reconhecer que o risco assumido é apenas o risco residual , aquele que permanece após a adoção de todas as medidas técnicas razoáveis. O trabalhador possui expectativa legítima de que: os equipamentos estejam certificados e mantidos, os procedimentos reflitam a prática real, a equipe seja dimensionada adequadamente...

Curso de mergulho profissional no Brasil

Para se tornar mergulhador profissional raso (50 mt) no Brasil, é preciso recorrer à uma das três escolas credenciadas pela Marinha.  Uma das opções é o Senai, que oferece o curso no Rio de Janeiro e em Macaé. A outra é a Divers University em Santos, e por fim, a mais jovem entre as escolas de mergulho profissional, A Mergulho Pro Atividades Subaquáticas.  Os valores estão na média de R$ 5085,04 (Preço Senai) para a formação básica, sendo aconselhável realizar outras especializações que podem elevar significativamente o investimento. Por exemplo, para trabalhar no mercado off-shore é pré-requisito de uma forma geral, a formação em:   Montagem e manutenção de estruturas submersas  (R$2029,46).   Outro exemplo de formação básica complementar:    Suporte Básico À Vida Para Mergulhadores. (Não é pré-requisito) É um ponto positivo pois capacita o mergulhador a prestar os primeiros socorros dentro dos padrões solicitados pela NORMAM 15 (DPC - Marinha...

Doenças invisíveis dos mergulhadores da indústria de óleo e gás

O mergulho profissional na indústria de óleo e gás é um trabalho de alto risco, altamente técnico e fisicamente exigente. Por trás das estruturas em alto-mar e das operações submarinas, há pessoas que colocam o corpo em condições extremas: pressão elevada, água fria, tarefas pesadas com ferramentas e ergonomia limitada. Isso cobra um preço 🌊 **Doenças Ocupacionais em Mergulhadores Profissionais da Indústria de Óleo e Gás – Uma análise científica baseada em evidências** O trabalho subaquático na indústria de óleo e gás expõe o corpo humano a condições físicas extremas: grandes pressões, repetições de imersões, misturas gasosas complexas, temperaturas frias, uso de equipamentos pesados e demandas ergonômicas intensas. Essas condições criam um conjunto específico de doenças disbáricas e lesões ocupacionais que diferem do mergulho recreativo em sua frequência, gravidade e implicações de longo prazo. 🧠 1. Doença da Descompressão (DCS) 📌 Definição e fisiopatologia A Doença da Descompress...

O custo psicológico do mergulho profissional

  O custo psicológico do mergulho profissional Ansiedade, silêncio e estigma no trabalho subaquático No mergulho profissional, os riscos físicos são amplamente conhecidos. Pressão, profundidade, equipamentos complexos e ambientes hostis fazem parte da rotina de quem trabalha debaixo d’água. O que raramente entra nos relatórios técnicos, porém, é o impacto psicológico dessa atividade — um custo silencioso que acompanha mergulhadores antes, durante e depois de cada operação. Ansiedade, tensão constante e estresse acumulado costumam ser tratados como parte natural do trabalho. Quando ignorados, esses fatores afetam a tomada de decisão, comprometem a segurança operacional e geram consequências profundas para os trabalhadores e suas famílias. A carga invisível da responsabilidade O mergulhador profissional não responde apenas por si. Ele carrega a confiança da equipe, a pressão do cronograma, a expectativa da supervisão e, muitas vezes, operações de alto valor financeiro. Cada tarefa ex...

Quando o bônus vira risco: os perigos de premiar gestores pelo corte de custos

  Quando o bônus vira risco: os perigos de premiar gestores pelo corte de custos Em muitos contratos offshore , metas agressivas de redução de custos passaram a ser tratadas como sinônimo de eficiência. Gestores são premiados por entregar orçamentos enxutos, cronogramas acelerados e economias imediatas. O problema surge quando esse corte não atinge desperdícios — mas sim o elo mais frágil da cadeia produtiva: o profissional de atividade-fim. No mergulho profissional , esse elo tem nome, CPF e família esperando em casa. Reduzir custos sem critério, especialmente em operações subaquáticas , não é estratégia. É aposta. O falso ganho da economia operacional Na prática, o que se observa em ambientes de alta pressão financeira é a redução de investimentos em: Treinamento e reciclagem de mergulhadores Manutenção preventiva de equipamentos críticos Atualização de sistemas de suporte à vida Redundâncias operacionais e equipes completas Planejamento de contingência e gestão de risco humano...

A negligenciada limpeza dos capacetes Kirby Morgan no mergulho comercial brasileiro

  A limpeza dos capacetes Kirby Morgan no mergulho comercial brasileiro: o que dizem os manuais e o que acontece na prática No mergulho comercial brasileiro, especialmente na indústria naval e de óleo e gás, os capacetes Kirby Morgan são equipamentos compartilhados entre mergulhadores em uma mesma frente de trabalho. Em teoria, os manuais do fabricante e as boas práticas internacionais são claros: capacetes compartilhados exigem limpeza e sanitização adequada entre um mergulho e outro. Na prática, porém, o cenário encontrado em muitas operações está longe do ideal. 🚢 A realidade no campo: apenas detergente, quase nunca sanitização Em grande parte das frentes de mergulho no Brasil, o material enviado pelas empresas para a higienização dos capacetes se resume a detergente comum (geralmente neutro) e água doce. Produtos sanitizantes apropriados — aqueles capazes de eliminar bactérias, fungos e vírus — raramente fazem parte do kit operacional. O resultado é um procedimento que, na mel...

701 metros abaixo do limite humano: o mergulho que redefiniu o que é possível

  O mergulho que reescreveu os limites humanos: o case do Projeto Hydra e a revolução do mergulho de saturação Mar do Norte , décadas de 1970 e 1980. Água quase congelando, visibilidade mínima, pressões esmagadoras. Foi nesse cenário hostil que o mergulho comercial deixou de ser apenas uma atividade operacional — e se tornou um laboratório extremo de inovação humana, médica e tecnológica. Quando a profundidade deixou de ser o maior inimigo Até os anos 1960, o mergulho profissional tinha um limite claro: o corpo humano. A profundidade exigia longas descompressões, os riscos neurológicos eram altos e o tempo útil de trabalho era extremamente curto. A indústria offshore europeia — especialmente no Mar do Norte — precisava de algo radicalmente novo. Plataformas avançavam para águas cada vez mais profundas, e o custo do “tempo morto” de descompressão se tornava insustentável. Foi nesse contexto que nasceu um dos maiores cases de sucesso em inovação do mergulho comercial internacional:...